O pecado à luz de Lucas 10, 30

“Jesus retomou: ‘Um homem descia de Jerusalém a Jericó, e caiu no meio de assaltantes que após havê-lo despojado e espancado, foram-se, deixando-o semimorto.”[1]Trazendo essa passagem para nossa vida pode-se encontrar nela uma explicação sobre o pecado e suas consequências para nós.




O homem que desce de uma cidade a outra somos todos nós batizados e que temos a consciência de estarmos em um status viae, somos colocados como peregrinos nesta terra, mas não qualquer tipo de peregrinos, já temos um objetivo bem definido, saímos de A para chegar a B, saímos desta cidade humana e procuramos chegar um dia na cidade divina. Este homem - assim como nós - possui um objetivo a ser alcançado e está firme nele, afinal ele está na estrada para poder chegar aonde quer.


Neste caminho vemos algumas pessoas um pouco a frente, em um primeiro momento nada demais, e continuamos indo em direção a elas, parecem meio diferentes, meio estranhas, parece que algo de errado não está certo, mas continuamos na certeza que não vai acontecer nada de errado, afinal o que poderia me acontecer? Como quem não quer nada essas pessoas começam a se aproximar e nós percebemos que tem algo errado, mas não vai ser nada demais não, é só coisa da nossa cabeça.


Mas quando estamos lado a lado é que a coisa fica feia, pois agora descobri que todos os avisos que eu tinha ouvido antes vindo da minha consciência eram verdadeiros e não somente algo sem sentido. Nesta hora ficamos encurralados e fugir se torna quase impossível. Agora só sobra o arrependimento de não ter ido embora pois estamos sendo assaltados. E o que vão levar?


Primeiro vão nos despojar de tudo aquilo que carregamos. Nosso estoque de viagem, aquilo que trazíamos conosco, seja porque ganhamos no começo da viagem ou porque juntamos no caminho; todos os nossos méritos são levados. Não sendo suficiente levar tudo aquilo que nós juntamos ainda encontram aquilo que nos garante a entrada na nossa cidade de destino, nosso “ingresso”, e pelo simples prazer de nos machucar rasgam ele ali na nossa frente só pra mostrar que agora não podemos entrar mais naquela cidade que tanto desejávamos. Depois de pegar tudo os que tínhamos, ainda não satisfeitos, começam a nos bater, pela simples razão de nos deixar mais fracos e sem força para lutar, nos batem, batem, batem até quase nos matar, depois vão embora rindo por mais um idiota que foi pego por eles. E nós ficamos ali, abandonados, sem nada que um dia tivemos para a viagem, sabendo não poder entrar mais na cidade, mesmo se chegássemos à sua porta, a única companhia que nos sobra é a dor que eles nos causaram. Nesta história um pouco mais alegorizada tem-se os passos e os elementos do pecado na vida de cada homem. Primeiro tratemos dos passos.


Na estrada para o céu nos deparamos com uma realidade que pode nos levar ao perigo da morte da nossa alma, uma matéria grave. Sabemos que se aquilo ao longe for o que estamos imaginando, podemos estar nos condenando a morte, consciência do erro, mas mesmo assim continuamos negando essas coisas. Quando chegamos mais perto algo nos avisa que se continuarmos vai dar problema, mas escolhemos continuar, escolha deliberada, mesmo sabendo que aquilo vai nos conduzir a uma situação um tanto quanto constrangedora. E mesmo com o último aviso que recebemos nos acréscimos do segundo tempo, na nossa última chance de lutar para fugir daquilo que já temos plena consciência que vai acontecer, não fugimos e mudamos o caminho para chegar ao nosso objetivo. Está consumado, já que não fugimos agora temos que lidar com as consequências das nossas escolhas, ou melhor da nossa escolha de não fugir daquela situação.


A primeira consequência é o roubo, perdemos todo o estoque para conseguirmos sobreviver a viagem, perdemos os méritos de nossas boas obras, tudo o que tínhamos conquistado diante de Deus por nossas boas ações nos é retirado, ficamos de mãos vazias, sem nada o que oferecer a Deus. Para piorar um pouco ainda temos a nossa “passagem” rasgada em nossa frente; o pecado destrói com a graça santificante que recebemos no batismo, e mesmo que conseguíssemos chegar ao destino não poderíamos entrar, pois esta passagem é uma condição sine qua non. Sem a graça santificante não podemos entrar na tão sonhada cidade.


Não achando ser somente isso suficiente, o pecado ainda nos dá uma surra, nos deixando em condição de semimortos. Esta última consequência é um “brinde” que recebemos e nele vem escrito que você se prejudicou e agora vai ficar mais fraco nas próximas lutas, é uma consequência lógica. Quando machucamos um dedo, por exemplo, ele fica doendo por muito tempo; quando ele está quase sarando nós o batemos de novo e dói como se tivéssemos machucado da mesma forma de antes. Assim também é com o pecado, ele vem e nos dá uma surra da primeira vez, nos deixa fracos, quando estamos melhorando ele vem e bate de novo, mas agora é mais fácil de nos deixar como antes, pois ainda temos as sequelas da outra surra que tomamos. Esse ciclo de apanhar, melhorar um pouco e apanhar de novo, vai fazendo com que cada vez mais aquelas feridas demorem a cicatrizar, e cada vez mais uma coisa menor que nos acerta nos deixe no mesmo estado de antes.


Isto é o pecado, um grupo de assaltantes que vem leva tudo o que temos e ainda nos dá uma surra, nos deixando quase mortos a beira de uma estrada onde muitos passam e não fazem nada para nos ajudar. Mas porque Jesus é misericordioso, a parábola não termina assim. Se continuarmos a leitura vamos encontrar a figura de um samaritano, uma pessoa que não tinha o menor motivo para nos ajudar, uma pessoa que não estava obrigada por nenhum motivo a nos ajudar, mas que mesmo assim vem e cuida das nossas feridas, e paga o preço da nossa recuperação, e ainda nos confia a custódia de quem ele sabe ter o poder para nos ajudar nessa recuperação, por quanto tempo precisarmos.



[1]Lc 10, 30


Autor:


Pastores Dabo Vobis
  • Instagram - White Circle
  • Facebook - Círculo Branco