São Carlos Borromeu: modelo para o episcopado e fundador dos primeiros seminários


“O seu mote consistia numa só palavra: ‘Humilitas’. A humildade estimulou-o, como o Senhor Jesus, a renunciar a si mesmo para se fazer servo de todos”. Tais palavras, proferidas pelo Papa Emérito Bento XVI no dia 4 de novembro de 2007, resume toda a vida e missão do santo que celebramos hoje: São Carlos Borromeu, modelo de bispo e responsável pelos seminários nos moldes como nós os conhecemos.


O que este santo, que foi arcebispo de Milão no século XVI, pode nos ensinar? Podem dar algumas respostas para essa pergunta o seu zelo apostólico, a doação de si ao rebanho que lhe foi confiado, a obediência e fidelidade à Igreja e diversas outras obras, dentre as quais será destacada, neste texto, a criação dos primeiros seminários.


Filho de Gilberto Borromeu e Margherita de Medici, o jovem Carlos nasceu em 2 de outubro de 1538, em Arona. A família era de muitas posses, mas isso não impediu que seus pais lhe oferecessem uma educação piedosa: o menino recebeu a tonsura aos 8 anos, tornou-se abade aos 12 e completou os estudos de Direito civil e eclesiástico em Pavia. Sempre precoce, Carlos foi criado cardeal com apenas 21 anos por seu tio, o Papa Pio IV.


Devido à impopularidade do Papa Paulo IV, o Concílio de Trento havia sido interrompido e apenas foi retomado devido ao ardor de nosso jovem Cardeal, que usou da diplomacia e da santa insistência para convencer os Padres Conciliares a voltarem a se reunir, o que veio acontecer em janeiro de 1562. Importante frisar que Carlos Borromeu não participou diretamente do Concílio: decidiu permanecer nos bastidores, em Roma, mantendo-se informado de tudo o que acontecia em Trento e intervindo de modo indireto. Deus já o preparava para exercer sua maior missão no período após o Concílio.


O início de seu ministério foi profundamente marcado pelo pensamento da morte, pela espiritualidade inaciana, pela direção espiritual do jesuíta Pe. Ribera e pela amizade com São Filipe Néri. Sua missão girou em torno de colocar em prática aquilo que os Padres Conciliares haviam ensinado e fixado nos documentos tridentinos.


Ele voltou sua atenção à Liturgia, para dar maior dignidade e decoro àquilo que estava desorganizado, estimulou a revisão da Bíblia, do Breviário e do Missal, tarefa completada somente nos tempos de São Pio V, e participou diretamente da redação do Catecismo Romano, publicado em 1566.


Tendo servido em Roma à Igreja universal, eis que chegou o momento de uma missão mais direta no contexto de uma Igreja local: foi feito arcebispo de Milão. Nas palavras de São João Paulo II, na homilia do 4º centenário do falecimento de São Carlos Borromeu: “O Senhor já se tinha revelado - uma vez - nesta comunidade eclesial (Arquidiocese de Milão) como o Bom Pastor, através do grande Santo Ambrósio e, ao longo dos séculos, de muitos outros bispos. E aqui novamente, durante o século XVI, o Bom Pastor encontrou um novo reflexo - da estatura de Ambrósio - em Carlos, da família Borromeu”[1].


Durante vinte anos, dedicou-se inteiramente ao rebanho milanês, como verdadeiro pastor de almas, num contexto de extrema degradação moral e relaxamento doutrinal. Muitos padres levavam uma vida de escândalos e os leigos, carentes de bons exemplos, estavam numa situação ainda pior. Borromeu, então, fez o que há muito tempo a cidade não via um bispo fazer: fez-se presente. Ele organizou a Arquidiocese e a colocou no rumo certo, o que não agradou aqueles que estavam apegados à vida desregrada. O Santo, no entanto, não se deixou intimidar.


São Carlos tinha bem claro que seu maior e principal compromisso para com a Igreja era sua vida interior, tendo sempre a firme convicção de que as almas se conquistam de joelhos[2]. Gastava horas por dia meditando, rezava o Breviário ajoelhado, dormia poucas horas num local desconfortável e não comia muito, o que fazia com que os mais próximos se preocupassem com sua saúde. Ele fazia questão de passar para todos, mas principalmente para os sacerdotes, um pouco de sua devoção ao Santíssimo Sacramento, à Paixão do Senhor e aos Exercícios espirituais de Santo Inácio de Loyola.


Uma das maiores provações pelas quais o Santo teve que passar foi a peste de 1576, que deixou 25 mil mortos apenas na cidade de Milão e suas redondezas rurais. Os membros das classes mais abastadas deixaram a cidade, inclusive o governador, e o arcebispo Carlos Borromeu tornou-se o novo governante da cidade. Nesse contexto repleto de paralelos com o que vivemos hoje na pandemia do COVID-19, o santo ofereceu-se como vítima de sacrifício expiatório pelos pecados do povo.


Sem hospitais, camas, enfermeiras, comida ou sacerdotes, São Carlos desdobrou-se para dar um mínimo de suporte aos corpos e às almas. Extremamente angustiado por ver a atitude de seu presbitério, ele exortou: “Não sejais tão negligentes com vosso sacerdócio a ponto de preferirdes uma morte tardia a uma morte santa”[3]. Porém, ele também se preocupava com a saúde de seus padres: “Isso não quer dizer que devais negligenciar os meios humanos (...), pois tais meios não se opõem de modo algum ao cumprimento da nossa obrigação”[4].


Talvez uma das pérolas mais brilhantes e importantes do episcopado de São Carlos – e que deixa marcas até hoje - foi a fundação dos primeiros seminários no modelo como hoje nós os conhecemos. De fato, a 23ª Sessão do Concílio de Trento, realizada em 1563, encerrou-se com a aprovação do decreto sobre a Doutrina do Sacramento da Ordem, contendo um capítulo específico para a ereção dos seminários para a educação dos Clérigos. O Cardeal Borromeu trabalhou diretamente em prol da aprovação desse documento, convicto que estava da necessidade insubstituível de seminários para a formação de sacerdotes que fossem capazes de promover a renovação espiritual dos fiéis[5].


No documento em questão, ficou determinada a abertura dos seminários no âmbito das dioceses, com o intuito de melhor instruir os candidatos ao sacerdócio na disciplina eclesiástica, sendo que todos receberiam a tonsura, usariam o hábito clerical, aprenderiam gramática, canto, Sagrada Escritura, homilias dos Santos e outras disciplinas úteis à formação presbiteral. Caberia ao Bispo local garantir aos seminaristas a Missa diária, a confissão mensal, a comunhão sacramental (na frequência estabelecida pelo confessor) e designá-los para o serviço na catedral e em outras igrejas[6].


Então, São Carlos criou uma comissão com o objetivo de fundar um seminário em Roma e pediu à Companhia de Jesus que abrisse um em Milão. Este seminário dos jesuítas foi o primeiro de todos, tendo sido fundado em 10 de dezembro de 1564. Após a fundação do seminário jesuíta, ele fundou os Oblatos de Santo Ambrósio, uma congregação de sacerdotes diocesanos, com o carisma de administrar os novos seminários.


O desejo de abrir e organizar seminários o acompanhou até a morte: na véspera de seu falecimento, São Carlos visitava a Suíça, onde queria abrir mais uma de suas instituições. No entanto, uma febre o atingiu repentinamente e ele foi levado às pressas para Milão, onde faleceu em 3 de novembro de 1584, com apenas 46 anos de idade. Algumas semanas antes ele havia dito: “Para iluminar os outros, uma candeia deve se consumir”[7]. Esta frase serviu como uma profecia: o santo se preencheu da luz divina, a transmitiu para os outros e consumiu a si próprio nessa missão, merecendo, desse modo, a vida eterna.


Canonizado apenas 26 anos após sua morte, a luz acendida por São Carlos Borromeu logo se espalhou por toda a Europa. São Roberto Belarmino, São Vicente de Paulo, São Francisco de Sales e São João Paulo II são alguns dos santos que, de um modo ou de outro, foram marcados pelo legado do arcebispo de Milão e transmitiram, com devoção, a sua vida e exemplo. Desse modo, sua missão continua até hoje: serve de modelo ao episcopado e de intercessor em prol dos seminários.


Hoje, na celebração de sua memória litúrgica, somos nós que pedimos a Deus a graça de imitarmos a coragem e o ardor de tão venerável santo. Que São Carlos Borromeu “dê a cada um de nós uma confirmação profunda da dignidade que todos carregamos na nossa própria humanidade e nos prepare para levar esta dignidade que vem de Deus como fundamento do nosso caminho. Este é o cerne da mensagem que São Carlos Borromeu nos deixa”[8].


São Carlos Borromeu, rogai por nós!

[1] Disponível em http://www.vatican.va/content/john-paul-ii/it/homilies/1984/documents/hf_jp-ii_hom_19841104_san-carlo-borromeo.html (acesso em 9 out 2020) [2] Disponível em http://www.vatican.va/content/benedict-xvi/pt/angelus/2007/documents/hf_ben-xvi_ang_20071104.html (acesso em 15 out 2020) [3] Disponível em https://padrepauloricardo.org/blog/um-santo-em-meio-a-epidemia (acesso em 9 out 2020) [4] Idem. [5] Disponível em http://www.collegiosancarloroma.it/collegiosancarloroma/index.php?option=com_k2&view=item&layout=item&id=36&Itemid=631&lang=it (acesso em 15 out 2020) [6] Disponível em http://agnusdei.50webs.com/trento28.htm (acesso em 20 out 2020). [7] Disponível em https://padrepauloricardo.org/blog/um-bispo-no-espirito-do-concilio-de-trento (acesso em 9 out 2020). [8] Disponível em http://www.vatican.va/content/john-paul-ii/it/homilies/1984/documents/hf_jp-ii_hom_19841104_san-carlo-borromeo.html (acesso em 9 out 2020).

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