São José e o trabalho


Neste 19 de Março, a Igreja celebra a Solenidade de São José, esposo da Virgem Maria. Por isso, alguém pode estar se perguntando se este texto não deveria ser postado em 1º de maio, quando a Igreja celebra a memória de São José Operário. No entanto, sendo São José homem de muitas virtudes, não poderia ficar de fora desta coletânea de textos sobre o pai adotivo de Jesus alguma reflexão sobre uma de suas maiores virtudes, a laboriosidade. Sendo assim, faz-se oportuno, mesmo nesta data, destacar o trabalho do Glorioso Patriarca.


O trabalho dignifica o homem, assim diz a Palavra e assim se fez em São José, o justo[1], chamado pela Igreja de modelo para todos os pais de família e trabalhadores. Em São José, Deus quis imprimir a imagem do bom trabalhador, e a Igreja, movida pelo Espírito Santo, reconheceu a voz do Senhor e vem, ao logo dos séculos, rendendo ao pai adotivo de Jesus todo o louvor que ele merece. São João XXIII, na Carta Apostólica Le Voci, sobre a devoção a São José, cita os diversos títulos e louvores que seus antecessores concederam ao pai adotivo de Jesus[2]. Entre tais honras, cabe destacar as concedidas pelo venerável Papa Pio XII que instituiu, em 1955, a festa de São José Operário, estabelecida com o objetivo de batizar, sob o patrocínio de São José, o feriado do dia do trabalho[3], que vinha associado fortemente à ideologia marxista. Disse o Papa nesta ocasião:

“Neste dia 1º de maio, que o mundo do trabalho tomou como festa própria, nós, vigários de Cristo, queremos reafirmar, em forma solene, a dignidade do trabalho a fim de que inspirem na vida social as leis da equitativa repartição de direitos e deveres. Tomado neste sentido pelos operários cristãos, o primeiro de maio, em vez de ser fomento de discórdias, de ódio e de violências, é e será um convite constante `a sociedade moderna de completar o que ainda falta à paz social. Seja portanto o 1º de maio uma festa cristã, um dia de júbilo para o triunfo concreto e progressivo dos ideais cristãos da grande família do trabalho”[4].

A preocupação do Papa com os trabalhadores deixa claro a grande estima que a Igreja tem em relação ao trabalho humano. Além disso, muito antes da Igreja existir, o trabalho já parecia ter uma grande relevância diante de Deus. A Sagrada Escritura está repleta de passagens referentes ao trabalho. Logo no início dela, está escrito: “No suor do teu rosto comerás o pão, até voltares ao solo do qual fostes tirado”[5]. E em Provérbios: “Quem lavra a própria terra se fartará de pão. Quem vive na ociosidade, seu alimento será a miséria”[6]. O próprio Cristo diz: “Meu Pai trabalha até agora, e eu também trabalho”[7].


Por isso, voltamos a nos questionar... Por que será que Deus quis dar tanta importância ao trabalho humano? E ainda podemos acrescentar outras duas perguntas: por que São José aparece na história, relacionado com tanta força ao trabalho? Será que existe uma relação entre a finalidade do trabalho e São José? É difícil responder a estas perguntas com exatidão, porém, recorrendo ao auxílio da Igreja, percebemos que nossa querida Mãe já apresentou algumas reflexões acerca desses questionamentos.


Na Exortação Apostólica Redemptoris Custos, sobre a figura e a missão de São José na vida de Cristo e da Igreja, o Papa São João Paulo II exalta o valor do trabalho humano no Evangelho: “Juntamente com a humanidade do Filho de Deus, ele foi acolhido no mistério da Encarnação, como também foi redimido de maneira particular. Graças ao seu banco de trabalho, junto do qual exercitava o próprio ofício juntamente com Jesus, José aproximou o trabalho humano do mistério da Redenção”[8].


As palavras da Igreja nos mostram que provavelmente Deus quis dar ao trabalho uma característica redentora, o que fica evidente pelo fato de o próprio Filho de Deus ter assumido o trabalho de seu pai, quando esteve aqui na terra. Além disso, neste mesmo tópico sobre o trabalho, no parágrafo seguinte, o Papa diz que Jesus, sendo submisso a São José[9], foi carpinteiro junto a ele, e o trabalho que aprendeu com seu pai adotivo teve uma participação notável em seu crescimento em sabedoria, estatura e graça. Portanto, Deus constituiu o trabalho como instrumento para o aperfeiçoamento humano, o que pode ser uma resposta à primeira pergunta.


Já em relação às outras duas perguntas, pode-se dizer que Cristo, ao assumir o trabalho humano, fê-lo com todo o seu ser, realizando-o com perfeição e, dessa maneira, redimiu-o, dando-nos uma forma de proceder – deixando-nos o exemplo de como o trabalho pode nos fazer crescer nas virtudes –, apesar da antiga maldição, dirigida a Adão: “No suor do teu rosto comerás o pão”[10]. Unindo esse dado ao fato de que Jesus aprendeu a trabalhar com José, começando das lições mais básica até as mais avançadas, o pai adotivo de Jesus aparece, então, intimamente ligado não só ao trabalho em si, mas à sua própria finalidade, da qual falamos acima. E assim cremos responder às duas últimas perguntas.


Um outro aspecto sobre o trabalho de São José importante de se ressaltar é que o pai putativo de Jesus é um modelo para os trabalhadores, não só porque participou, por meio do trabalho, da vida de Cristo, ensinando-lhe seu ofício, mas também porque buscou aperfeiçoar-se através do trabalho cotidiano. Foi no trabalho atento e silencioso de São José que Deus quis reunir nele todas as virtudes. Foi por caridade que São José, movido por um profundo amor a Deus, doou a sua vida na carpintaria para sustentar a Sagrada Família. Quantas horas não deve São José ter passado em sua oficina trabalhando, suportando o cansaço, as dores a até acidentes de trabalho?


Quanta fé São José manifestou a Deus confiando a Ele todos os dias seu trabalho com a plena certeza de que Deus tudo provê e nada deixaria faltar. Assim, sendo José um homem justo e tendo em casa o Filho e a Mãe de Deus, soube muito antes do Apóstolo que tudo concorre para o bem daqueles que amam a Deus[11]. Já tinha ele o Evangelho inscrito no coração. Além disso, belos sentimentos de esperança devem ter inundado o coração de São José, durante as longas horas de trabalho.


Não se esperaria outra reação de São José a não ser exultar de alegria, na esperança de ver a libertação de Israel, a chegada do grande dia. Ele ouviu do anjo que o filho de Maria salvaria o povo de Israel de seus pecados[12], e dos pastores o que a Anjo lhes dissera acerca do menino, pois estes “contaram o que lhes fora dito a respeito dele”[13], além de ter presenciado a profecia de Simeão[14] e a adoração de grandes reis do Oriente ao menino[15]. São José, em seu trabalho cotidiano, experienciou profundamente a virtude da esperança.


A virtude da laboriosidade foi a virtude humana da qual Deus se serviu para agraciar São José. Por meio do trabalho, Deus realizou nele uma grande obra. Tomemos, então, São José como modelo de conduta em nossos trabalhos, pedindo-lhe sempre a sua intercessão para que a vontade de Deus seja sempre a regra diretriz de nossas ações. Se assim procedermos, aquele que um dia ensinou ao próprio Deus também nos ensinará a realizar todos os trabalhos que a vontade de Deus nos pedir.


Para finalizar, apresentamos o belíssimo hino do ofício das leituras, composto para horar São José. Este hino é rezado pela Igreja todos os anos no dia da memória litúrgica de São José Operário:


Nossas vozes te celebram,

operário São José,

que a oficina consagraste,

trabalhando em Nazaré.


Tão humilde tu vivias,

tendo em ti sangue de rei!

Em silêncio um Deus nutrias,

ao cumprires sua lei.


O teu lar era um modelo

de trabalho e de oração;

com o suor de tua face

conquistavas o teu pão.


Elimina os egoísmos,

dá aos pobres de comer;

possa a Igreja, Cristo místico,

sob a tua mão crescer.


No Deus trino, autor do mundo,

proclamemos nossa fé,

imitando a vida e a morte

do operário São José.


São José, modelo para todos os trabalhadores, rogai por nós.


Autor:

[1] Cf. Mt 1,19 [2] Papa João XXIII, Carta Apostólica Le Voci, nn. 4-11 [3] https://padrepauloricardo.org/episodios/memoria-de-sao-jose-operario [4] Discorsi e Radiomessaggi di Sua Santità Pio XII, (tradução: http://cleofas.com.br/por-que-sao-jose-e-chamado-patrono-do-trabalho/) [5] Gn 3,19 [6] Pr 28, 19 [7] Jo 5,17 [8] Papa João Paulo II, Exortação Apostólica Redemptoris Custos, n 22 [9] Cf. Lc 2, 51 [10] Gn 3,19 [11] Cf. Rm 8,28 [12] Cf. Mt 1,20-21 [13] Lc 2,17 [14] Lc 2,29-35 [15] Cf. Lc 2,11

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