São José, Pai e Senhor



O Papa Leão XIII, em sua Encíclica Quamquam Pluries, exorta-nos: “As razões pelas quais São José deve ser tido como Patrono da Igreja – e a Igreja por sua vez espera muitíssimo da sua especial proteção residem sobretudo no fato que ele é esposo de Maria e Pai putativo de Jesus Cristo. Daqui derivam toda a sua grandeza, graças, santidade e glória”[1]. O papa João Paulo II escreveu na Exortação Apostólica Redemptoris Custos, que a Igreja do nosso tempo tem numerosos motivos para rezar e pedir a proteção de São José[2]. Também o Papa Paulo VI afirmava que a Igreja queria a proteção de São José “pela indestrutível confiança naquele ao qual Cristo quis confiada a proteção de sua frágil infância, desejará continuar do céu a sua missão tutelar na guia e na defesa do próprio corpo místico de Cristo...”[3].


Portanto, que nesse ano de São José, supliquemos em especial a proteção do grande Patrono Universal da Igreja. Ano que deve ser vivido numa perspectiva sobrenatural, uma grande oportunidade para que todo o povo cristão medite, na vida deste Homem, sobre o mistério da Encarnação, porque apresenta a verdadeira intimidade com o Verbo Encarnado, assim como explicita São Josemaría Escrivá: “São José, Pai de Cristo, é também teu Pai e teu Senhor. - Recorre a ele”[4].


ANO DE SÃO JOSÉ

Pai amado, pai na ternura, na obediência e no acolhimento; pai com coragem criativa, trabalhador, sempre na sombra: com estas palavras, o Sumo Pontífice descreve São José. E o faz na Carta apostólica “Patris corde – Com coração de Pai”, publicada no dia 08 de dezembro de 2020 por ocasião dos 150 anos da declaração do Esposo de Maria como Padroeiro da Igreja Católica, pelo Beato Pio IX com o decreto Quemadmodum Deus.


Depois de Maria, São José é o Santo a quem os papas mais se dedicaram em seus escritos. Ao recordar os 150 anos da proclamação de Padroeiro da Igreja Universal, o Papa Francisco institui o “Ano de São José”, trazendo para o centro das reflexões e orações da Igreja o único homem que amou Jesus “com um coração de Pai”.


O Próprio Papa, grande devoto de São José, explicou, em carta pastoral, sua motivação: “Como diz Jesus, gostaria que a boca expressasse o que transborda no coração, para compartilhar com vocês algumas reflexões pessoais sobre essa extraordinária figura, tão próxima à condição humana e cada um de nós”[5].


A dificuldade da pandemia fez com que o Sumo Pontífice sentisse ainda mais forte a necessidade de destacar uma figura silenciosa, um homem que passa despercebido, mas que, na verdade, é um intercessor, um suporte, guarda e guia. São José é o guarda da Igreja, porque também guardou a Sagrada Família confiada a ele pelo próprio Deus. Se o Glorioso Patriarca foi escolhido para ser protetor da Sagrada Família, hoje é importante clamar a proteção de São José em períodos difíceis, em que o poder do mal quer nos arrancar da presença de Deus.


São José não é, portanto, uma figura decorativa no presépio, mas juntamente com Maria foi querido por Deus com uma tarefa precisa, cujo conhecimento é indispensável para compreender o próprio mistério da redenção, que tem o seu fundamento no mistério da Encarnação.


GUIA DO POVO

Proclamado pelo Papa Francisco, o ano de São José é uma resposta para esses tempos difíceis. Olhando para São José como guia da Igreja, o Glorioso Patriarca nos incentiva a fazer desse ano um caminho de desapego dos bens terrenos e de busca pelos bens celestes. Em especial, pedimos a intercessão de São José como guia do povo de Deus, para que nos ensine que, através das dificuldades e sofrimentos, podemos nos unir ao Cristo Crucificado.


Vale, também, o testemunho de Santa Tereza: “Para alguns santos parece que Deus concede de socorrer-nos nesta ou naquela necessidade, enquanto que experimentei que ao glorioso São José estende o seu patrocínio sobre todos. Com isso o Senhor quer dar-nos entender que naquele modo em que era-lhe submisso na terra, onde ele como pai putativo mandava, da mesma forma, é agora no céu em fazer tudo o que lhe pede”[6].


O ano de São José é um período forte, que nos orienta a crescer na devoção ao Pai terreno de Jesus, e nos livrar dos ídolos que preenchem o coração dos homens e os afastam de Deus. A Espiritualidade de São José é, portanto, um auxílio na prática do desapego dos ídolos deste mundo. Olhando para o Pai putativo de Jesus, podemos tirar desse grande homem as virtudes necessárias para a vivência desse especial ano.


Apesar de o evangelista Mateus nos dar uma das grandes descrições do Santo Patriarca – era um homem justo[7] –, não se encontra, ao longo de todo o Novo Testamento, uma só palavra que tenha saído da boca de José. É o homem do silêncio. Porém, “o silêncio de José não é omissão, sim reflexão”, é o homem do discernimento, e o discernimento só acontece quando fechamos o coração para o mundo e abrimos para Deus. É no silêncio desse homem que é possível viver bem esse ano dedicado ao grande Patriarca. É o ano que a busca pelas virtudes tem que ser cada vez mais intensa, porque temos um modelo que foi coroado de todas as virtudes necessárias para poder desempenhar sua missão de proteger o Verbo Encarnado.


Em um mundo carente de pessoas virtuosas, São José é a figura necessária dada por Deus como guia, protetor e exemplo. São José é uma resposta à oração do povo de Deus, que clama cada vez mais por uma intervenção de Deus na História; e essa intervenção é clara na proclamação desse ano, porque no passado, o próprio Deus confia a São José o cuidado de Jesus, hoje confia o cuidado da Igreja. A devoção a São José ajuda a recordar dos dois tesouros da Santa Igreja dado por Deus: a devoção Mariana e a Eucarística. Ganham bastante destaque nesse ano, em que não se pretende meramente que São José ganhe fãs ou que fique mundialmente conhecido, esse tempo serve para ressaltar a importância da Maria e da Eucaristia para a Vida da Igreja.


A ladainha coloca São José como guarda da Virgem; portanto, podemos destacá-lo como um verdadeiro devoto da Virgem Maria. Assim, com o seu auxilio, a devoção a Mãe de Deus deve aumentar, porque depois de Jesus, José foi quem mais amou a Virgem de Nazaré. Por isso, as pequenas devoções marianas podem voltar ao nosso itinerário espiritual, como o Santo Terço, a Ladainha, o Ofício da Imaculada; são atos de devoção que podem também ajudar na intimidade com a Mãe de Deus. José ama a Virgem Maria, e coloca sua vida nas mãos da bendita esposa; o Santo Patriarca reafirma a importância do amor à virgem Maria para a vida da Igreja, e como devemos honrar e amar sua Santa Esposa. Quem ama José também ama Maria.


Ao colocar São José como Verdadeiro devoto da Virgem Maria, percebemos que é o guardião eucarístico. Esse ano é propício para que todos tenham uma vida eucarística. José mostra que para ser íntimo de Jesus é preciso cultivar uma vida Eucarística, porque foi a contemplação de Jesus que sustentou José. Assim, o sustento da vida cristã está na devoção Eucarística e Mariana. Por isso, sendo protetor de Maria e Jesus, é por graça protetor da Igreja.


SÃO JOSÉ PATRONO DA IGREJA

Não é meramente um acidente esse ano dedicado a São José, mas por meio da Igreja Deus escolhe esse Santo como o guia do povo nesse tempo tão difícil de pandemia. Podemos afirmar São José como o santo para todas as causas, ele que nos toma como filhos e nos ensinar a viver nesse tempo centrado em Cristo. Em sua bondade, Deus escolhe e orna esse homem de todas as virtudes para cuidar de Jesus e Maria; e tempos depois a Igreja reconhece São José, estendendo esse patrocínio a nós seus filhos para nos proteger do poder das trevas.


A Ladainha de São José o traz como o terror dos demônios, olhando como guarda da Igreja. José é a sombra que envolve todo o presépio e o protege; esse mesmo símbolo de sombra e silencio é a presença de José na vida da Igreja, é a sombra que envolve todo corpo místico de Cristo e o protege constantemente dos ataques do inimigo, por isso na sua ladainha é bem nítido o porquê é o terror dos demônios.


Esse ano é um tempo de Graça e recomeço, mas também é um tempo de combate. Combate conosco e com o demônio, em que a oração se apresenta como necessária para um bom cristão. José é o mestre espiritual durante a vida, e pedir sua intercessão e colocar-se como alguém que tem um grande Pai e Senhor.


Por fim, o Papa propõe um caminho de Graça e conversão, a partir do olhar direcionado a São José, guia do povo de Deus em momentos de dificuldade. É importante que seja o tempo da graça, e de reconhecer Jesus como verdadeiro Deus e verdadeiro homem. Seguir o modelo do Glorioso Patriarca é pedir que nos acompanhe e ensine a amar Jesus e Maria como ele amou. Ademais, São José irá ajudar a não esquecer que a vida do cristão é o caminho para deixar para atrás os ídolos e vícios, e chegar ao calvário dispostos a morrer e ressuscitar com Cristo.


Paulo VI afirma que “José é esta luz que difunde os seus raios benéficos na casa de Deus”[8], ou seja, na Igreja. Ele é a luz que ilumina com seu incomparável exemplo, através do seu serviço a Cristo e da sua disponibilidade por amor. Podemos afirmar que o exemplo de José e as lições que jorram de sua vida são uma escola para toda a Igreja, justamente porque a sua missão é única e grandiosa, missão de cuidar do Filho de Deus, Rei do mundo; missão de guardar a virgindade e santidade de Maria; missão de cooperar, sendo chamado para participar do grande mistério escondido nos séculos, da encarnação divina do Filho de Deus e da salvação da humanidade.


José não presenciou Jesus no caminho do calvário, mas com certeza viveu de forma antecipada um calvário particular na fuga para o Egito; se não estava aos pés da cruz, uniu-se à cruz de Cristo com uma vida doada e reflexiva. De acordo com o que escreveu São Paulo – “completo o que falta às tribulações de Cristo em minha carne pelo seu Corpo, que é a Igreja”[9] –, é possível afirmar que a vida de José foi um completar na carne o que iria faltar no sofrimento de Cristo; viveu do modo que sua vida foi uma união na cruz do seu Filho. Peçamos a intercessão do Santo Patriarca para que ensine a toda a Igreja que é tempo de unir-se com o Cristo crucificado. São José, guardião do menino Jesus e da Santa Igreja, ajude cada fiel a viver de modo íntegro e unido à paixão do seu Filho Jesus, e que no final da vida possam participar da Vida Eterna.


Concluo com uma breve oração a São José que o Papa propõe para esse ano. Santa Teresa de Jesus tinha um grande carinho pelo Santo Patriarca; peçamos que a mesma motivação que levou Santa D’Avila a pedir a intercessão de São José, possa ser de toda a Igreja.


Salve, guardião do Redentor e esposo da Virgem Maria! A vós, Deus confiou o seu Filho; em vós, Maria depositou a sua confiança; convosco, Cristo tornou-se homem.

Ó Bem-aventurado José, mostrai-vos pai também para nós e guia-nos no caminho da vida. Alcançai-nos graças, misericórdia e coragem, e defendei-nos de todo o mal. Amém!


Autor:

[1] Papa Leão XIII, Carta Encíclica Quamquam pluries, n.3 [2] Cf. Papa João Paulo II, Exortação Apostólica Redemptoris custos, n.31 [3] Papa Paulo VI, Allocuzione, 19/3/1965 [4] São Josemaria Escrivá, Caminho, n.559 [5] Papa Francisco, Carta Apostólica Patris corde [6] Santa Teresa, Livro da Vida, editora vozes, 2014 [7] Cf. Mt 1, 19 [8] Papa Paulo VI, Allocuzione, 19/3/1969 [9] Col 1, 24