São Josemaria e o amor aos sacerdotes diocesanos



"O que estou fazendo pelos meus irmãos sacerdotes?". Esse foi o questionamento que incomodou e, ao mesmo tempo, impulsionou São Josemaria a dedicar suas energias à solícita atenção com os sacerdotes diocesanos, ajudando-os a crescer na vida interior – de modo especial no amor à Santa Missa –, a cumprir com esmero os seus encargos pastorais, a afinar em uma sintonia cada vez mais profunda com o Bispo diocesano, bem como a secundar as suas iniciativas apostólicas. Um desejo que Deus colocara em seu coração e que viu se tornar realidade na vida de tantos bons sacerdotes, os quais se santificam no meio do mundo e aproximam tantas almas de Cristo.


Já em 1943, por especial graça de Deus, surge a Sociedade Sacerdotal da Santa Cruz, na qual poderiam ser incardinados alguns leigos, que já tinham a vocação ao Opus Dei, e que seriam ordenados, sem renunciar a sua vocação, para servirem de maneira especial aos membros da Obra, sendo também apoio ao desenvolvimento dos labores apostólicos. Mas aquela interpelação inicial, ainda não resolvida, haveria de ganhar força na alma de São Josemaria nos anos anteriores à década de 50: "O que estou fazendo pelos meus irmãos sacerdotes?”.


Pensava, concretamente, na solidão que poderia viver o sacerdote diocesano se não estivesse muito unido aos seus irmãos no clero. Assim o descreveu, de uma maneira límpida, Vásquez de Prada, ao comentar uma das fichas escritas pelo próprio fundador do Opus Dei, que seria utilizada em uma pregação durante um retiro dirigido a sacerdotes:

“¡Cuánta soledad y amargura había visto en las almas de muchos sacerdotes! Inmediatamente acudía a su memoria aquel ejercitante retraído al que un día fue a buscar, porque rehuía charlar con otro sacerdote. Le abrió el alma y vio en ella una inmensa soledad. Sobre aquel hombre pesaba una horrible calumnia.
— y los hermanos nuestros que están cerca de Vd. – le preguntó don Josemaría –; ¿no le acompañan?
— «Me junto solo», le respondió”[1].

O religioso ainda tem os seus confrades de Comunidade, quer goste ou não. Já a vida diocesana, por vezes, pode favorecer um lockdown permanente, mesmo em tempos de trégua do Coronavírus. Ainda que esteja mais envolvido no mundo e em contato com um maior número de pessoas, em virtude da própria natureza da vocação diocesana, mesmo assim é necessária uma intimidade mais profunda com os seus iguais, homens que possuam a mesma vocação e com quem possam falar de coração a coração. Na veia de todo presbítero corre o sangue de todo presbitério.


Igualmente pensava na necessidade de aquecer a vida espiritual dos sacerdotes diocesanos e de turbinar o seu apostolado. Tinha ciência do mal que poderia fazer à Igreja um sacerdote tíbio ou com uma formação deficiente. O sacerdote é um homem que leva consigo muitos nos ombros. Por isso, costumava repetir: “um sacerdote nunca se salva, nem se perde sozinho”. Importava – e muito! – que recebessem uma adequada e oportuna formação humana, espiritual, doutrinal-religiosa, litúrgica e apostólica. Dizia ainda que deveríamos pedir muito a Deus que os sacerdotes fossem fiéis, doutos, piedosos, entregues e alegres. Sacerdotes totalmente sacerdotes.


Com tal intensidade amava os seus irmãos no sacerdócio, que estava disposto a abrir mão do que até então tinha sido a sua razão de viver. Estava decidido – não sem dor – a deixar a Obra para se ocupar exclusivamente dos seus irmãos sacerdotes. Poucas pessoas sabiam da difícil e sofrida decisão. Entre elas estava o Beato Álvaro del Portillo, que a pedido de São Josemaria, iria assumir o comando geral da Obra. Não seria forçosa a comparação com um verdadeiro martírio. Um martírio sem derramamento de sangue.


Essa ideia fica clara nos acontecimentos posteriores, quando recrudesce uma grande perseguição contra a Obra, particularmente com o objetivo de expulsar o próprio fundador. Ao saber do conluio ardiloso que estava sendo tramado, teria dito a um de seus filhos no oratório: “Meu filho, viste como querem destruir a Obra e como me atacam?... É a passagem: “Feri, matai o pastor, e as ovelhas se dispersarão”... Eu te digo aqui, diante do sacrário, que, se me expulsam da Obra, me matam...![2] Para algumas das mais altas instâncias da Santa Sé, com muito carinho mas valentia, chegou a dizer: “– Se os senhores me expulsam do Opus Dei, saibam que são uns criminosos: a Obra é a minha vida, e, se me separam dela, matam-me..., assassinam-me!”[3]. Graças a Deus o circo montado – já com ingressos vendidos – foi desfeito pelo Papa Pio XII. Mas já alguns anos depois, em 1972, diante de novas calúnias, ter-se-ia lembrado daqueles fatídicos episódios dos anos 50: “São os mesmos que em 1951 queriam expulsar-me da Obra. Se o tivessem conseguido, ter-me-iam matado. E agora continuam a querer matar-me...”[4]


Se alguns dos biógrafos comparam esse gesto de deixar a Obra com o sacrifício de Abraão ao ter de sacrificar seu filho primogênito, Isaac, poderíamos pensar que para São Josemaria, desligar-se do Opus Dei, seria como morrer. E ele mesmo fez essa comparação. Neste sentido, podemos tocar agora no ponto nevrálgico de seu amor por seus irmãos sacerdotes. Queria-lhes a ponto de “morrer” por eles. É bastante comovente. E não é errado dizer que chegou a “preferir” o cuidado pastoral dos sacerdotes diocesanos aos labores e sonhos que já vinham se desenvolvendo desde 1928, quando viu a Obra. Os sacerdotes diocesanos foram, podemos assim dizer, objeto de predileção de um homem que amava profundamente a vocação laical.


Mas, assim como Abraão não precisou sacrificar o seu filho em decorrência de uma direta intervenção de Deus, São Josemaria também recebeu uma ajuda divina por meio de uma moção clara na sua inteligência, fazendo-lhe entender que os sacerdotes diocesanos poderiam integrar perfeitamente o Opus Dei sem renunciarem as exigências próprias de sua vocação secular e diocesana. “Cabem, cabem!” – Foi o que repetiu o fundador da Obra com grande entusiasmo ao ficar nítida essa ideia.


Assim, podem adscrever-se à Sociedade Sacerdotal da Santa Cruz, na condição de sócios supernumerários ou adscritos, os sacerdotes e diáconos transitórios diocesanos[5]. Outrossim, também são incorporados necessariamente à SSS+ os sacerdotes provenientes dos membros leigos do Opus Dei, esses que chamamos de sacerdotes numerários ou adscritos, aqueles que são ordenados para servir de maneira principal aos fiéis da Obra. Estes participam da SSS+ a partir do momento da ordenação; aqueles devem pedir a admissão formalmente por meio de uma carta, caso se sintam chamados a essa vocação específica e já participem há algum tempo dos meios de formação que a Prelazia oferece. Os sacerdotes numerários/adscritos são incardinados à Prelazia do Opus Dei; já os sócios supernumerários/adscritos[6] continuam incardinados em suas respectivas dioceses. Aqueles devem obediência ao Prelado da Obra; estes ao seu bispo diocesano[7].


A pertença ao Opus Dei dos sócios supernumerários e adscritos se fundamenta no direito de associação, preconizado pelo Código de Direito Canônico e vislumbrado nos documentos do Concílio Vaticano II. O vínculo, portanto, é meramente associativo. Esse direito de associação do sacerdote, uma vez que o ajude a viver melhor a sua vocação sacerdotal, é tido em alta conta e visto com muitos bons olhos pela Igreja.[8]


A Sociedade Sacerdotal da Santa Cruz compromete-se a oferecer aos seus sócios uma adequada formação para as necessidades que se colocam na vida sacerdotal, privilegiando a vida de piedade sacerdotal. Ao serem ordenados os primeiros sacerdotes da Obra, em 25 de junho de 1943, dizia-lhes São Josemaria que, passados os anos, pudessem dizer: “Cuando los más jóvenes que hay aquí peinen canas – o luzcan espléndidas calvas, como algunas que se vem –, y yo, por ley natural, haya desaparecido hace ya mucho tiempo, os preguntarán: ¿y qué os decía el Padre el día de la ordenación de los tres primeros? Y les contestaréis vosotros: pues nos decía: que seáis hombres de oración; hombres de oración y hombres de oración”[9].


A vida do sacerdote deve ser, essencialmente, uma “vita abscondita cum Cristo in Deo[10]. Há umas palavras de São Josemaria, posteriormente comentadas pelo então Prelado do Opus Dei, Dom Javier Echevarría, que resumem muito bem a identidade do sacerdote: “Todos os sacerdotes somos Cristo. Empresto ao Senhor a minha voz, as minhas mãos, o meu corpo, a minha alma, dou-Lhe tudo”. Os sacerdotes são Cristo à medida que se identificam com Cristo na Eucaristia. Emprestam sua voz ao Senhor por meio de um familiar convívio com a Palavra de Deus e uma disponibilidade total com as almas. Emprestam as suas mãos no amor à liturgia e na obediência à Igreja. E emprestam ao Senhor todo o seu ser quando são sacerdotes integralmente, cem por cento[11].


A vocação ao Opus Dei na SSS+ fomenta, fundamentalmente, que o sócio viva de maneira mais plena a sua vocação diocesana e a sua união com o Bispo. A vocação secular, que está no cerne do espírito do Opus Dei, integra a vocação diocesana. Por isso, os sacerdotes diocesanos também são chamados de sacerdotes seculares. Devem ser pessoas que amam a literatura, as artes, os esportes, a economia, a política, a ciência, a tecnologia etc. Participam do mesmo afã dos seus iguais, os homens, e são chamados a transformar o mundo ab intra, colocando Cristo no cume de todas as atividades terrenas. E por que não dizer “divinas”? Enfim, devem ser sacerdotes que amam o mundo apaixonadamente[12].Isso significa ser sacerdote diocesano até debaixo d’água, um homem bem resolvido, plenamente identificado com a sua vocação.


A união com o bispo é um dos aspectos centrais da vocação dos sócios da SSS+. “Nihil sine episcopo[13] diz o brocardo latino. Querer o seu bispo e secundar as suas iniciativas é sinal de muito bom espírito e indispensável naqueles que se colocam a vocação ao Opus Dei. Conta-se de um Arcebispo numa importante Arquidiocese brasileira que, ao ser nomeado como seu bispo auxiliar um sócio da SSS+, teria dito: “posso ficar muito tranquilo porque sei que esse novo bispo eleito, para ser fiel a sua vocação ao Opus Dei, vai me ajudar muito”. E noutra Arquidiocese, um Arcebispo que não entendia muito a Obra, mas comentando sobre alguns sócios que eram seus colaboradores no presbitério, teria dito: “eles são obedientes. Vivem o ‘nihil sine episcopo’”. Por isso, devem esmerar-se os sócios da SSS+ por viver de forma muito delicada essa união afetiva e efetiva com o seu Ordinário.


São Oscar Romero, arcebispo em El Salvador, também foi impactado pelo trabalho formidável da SSS+. Nutriu um profundo carinho por São Josemaria, sendo, inclusive, o primeiro bispo a escrever ao Papa pedindo a abertura do processo de beatificação, antes mesmo de se completar um mês do falecimento de Escrivá. Na ocasião, escrevia: “Sou profundamente agradecido a estes sacerdotes membros da Obra, aos quais confiei com muita satisfação a direção espiritual de minha própria vida e a de outros sacerdotes”. Essa proximidade com a SSS+ era tamanha que no dia em que foi assassinado, 24 de março de 1980, participara de um recolhimento para sacerdotes organizado pela SSS+, no qual meditou sobre a realidade do sacerdócio.


Hoje, 26 de junho, damos muitas graças a Deus pela vida de São Josemaria, a quem carinhosamente muitos chamamos de “Nosso Padre”. Todos nós que, de alguma maneira, fazemos parte dessa grande família que é a Obra, somos frutos da sua oração e mortificação. Fomos “gerados” com sangue e lágrimas. A mensagem de São Josemaria é como um mar sem fim. Tratava a Cristo, na Santa Missa, com tal veneração e carinho, que chegava a tremer cada vez que tocava com as suas mãos as espécies eucarísticas recém convertidas. Um homem otimista, positivo, alegre, cordial. Dizia que os cristãos devemos viver de afirmações, "afogando o mal em abundância de bem". Aos sacerdotes especialmente, comentava que não poderiam ser sectários, mas deveriam sempre estar, igual a Cristo, com os braços abertos em forma de cruz e acolher a todos: os da direita, os da esquerda, os da frente, os de trás. Em resumo, todos! Uma mensagem atraente para os nossos tempos.


"O santo do cotidiano", assim o batizou São João Paulo II, quando o canonizara em 2002. Ensinou-nos a transformar a prosa diária em decassílabos heroicos, em versos alexandrinos. Ideia concreta para nós que vivemos no meio do mundo e podemos encontrar com Cristo nel bel mezzo della strada. Qual era o fundamento da sua vida espiritual? “Deus é amigo, e a norma é a confiança”. Tratava a Deus como um Pai amoroso, que nos ama mais do que todas as mães da terra. Fazia-se criança. Criança que é dependente, que é sincera, que não tem vergonha de seus erros, em suma, que confia plenamente em seu pai.


[1] Andrés Vásquez de Prada, El Fundador del Opus Dei, vol.3. Tradução livre: “Quanta solidão e amargura eu tinha visto nas almas de muitos sacerdotes! Imediatamente, vinha a sua memória, aquele sacerdote aposentado que um dia foi procurá-lo, porque evitava conversar com outro padre. Abriu-lhe a alma e viu nela uma imensa solidão. Uma calúnia horrível pesava sobre aquele homem. "E nossos irmãos que estão perto de você", perguntou São Josemaría. Não o ajudam? - "Eu me encontro sozinho", ele respondeu. " [2] Urbano, Pilar. O Homem de Vila Tevere, pp.116-124 [3] Ibid. [4] Ibid. [5] Um seminarista diocesano, embora ainda não possa incorporar-se à Sociedade Sacerdotal da Santa Cruz na condição de sócio – portanto, figurar juridicamente –, pode, contudo, caso tenha as condições necessárias e se sinta chamado, pedir a admissão na condição de “aspirante”. [6] Qual seria a diferença entre um sócio supernumerário e um sócio adscrito? A vocação é a mesma. São Josemaria dizia que na sua panela tinha apenas uma única comida. A diferença entre eles é apenas a disponibilidade para ajudar nos labores da Obra. Um adscrito, de rigor, teria mais disponibilidade do que um sócio supernumerário. Mas uma ideia tem que estar clara: a pertença ao Opus Dei não deve – em absoluto – concorrer com as suas obrigações na diocese. Deve – isso sim – ajudá-lo a cumprir de maneira cada vez mais esmerada os seus encargos pastorais confiados pelo seu Ordinário. [7] Uma das perguntas que, talvez, alguns façam, seja entre a diferença entre os sacerdotes adscritos que pertencem à Prelazia da Santa Cruz e os sócios adscritos que permanecem vinculados a sua respectiva diocese. Os primeiros provêm dos leigos da própria Prelazia. Possuem uma vocação própria e, desde antes de sua ordenação, já estavam vinculados à Obra de forma jurídica. Os segundos são provenientes dos seminários diocesanos e, após a ordenação, formalizaram a admissão ao Opus Dei, pertencendo à SSS+, mas incardinados nas suas dioceses. [8] Vide Presbyterourum Ordinis e a Pastores dabo Vobis. [9] Tradução livre: “Quando os mais novos que aqui se encontram tiverem cabelos brancos - ou luzam esplêndidas calvas, como já se vai vendo -, e eu, por lei natural, tiver desaparecido há muito tempo, perguntar-vos-ão: que dizia o Padre no dia da ordenação dos três primeiros? E vós haveis de responder: dizia-nos: que sejais homens de oração, homens de oração e homens de oração”. [10] Col 3, 3. Tradução livre: “vida escondida com Cristo em Deus” [11] https://opusdei.org/pt-pt/article/os-ensinamentos-de-s-josemaria-para-os-sacerdotes/ [12] Ler Homilia do São Josemaria ”Amar o mundo apaixonadamente” [13] Tradução livre: “Nada sem o bispo”

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