Série Bento XVI: Caritas Christi Urget Nos

“Consola-me saber que o Senhor sabe trabalhar e agir também com instrumentos insuficientes. E, sobretudo, recomendo-me às vossas orações.” Com essas palavras, no dia de sua eleição como Sucessor de São Pedro, o Papa Emérito Bento XVI iniciou um pontificado que marcaria a história da Santa Igreja e da humanidade. Reverenciado por muitos como o grande teólogo da modernidade, em toda a sua vida não quis outra coisa senão servir a Verdade Encarnada e cooperar com ela para a Sua maior glória. Para homenagear este farol que mostrou à tantos a luz de Cristo, no mês de seu 93º aniversário, o Apostolado Pastores Dabo Vobis traz uma série de reflexões sobre a trilogia de Encíclicas que Sua Santidade desenvolveu sobre as Virtudes Teologais, partilhando não só a maestria com a qual ele conseguiu transformar pensamentos em sequências impecáveis de palavras, mas também, seu testemunho para tantos vocacionados e ministros que foram alcançados por ser exemplo de amor a Nosso Senhor e à Santa Igreja.



Nota propedêutica: Com uma rápida pesquisa na internet encontraremos com facilidade inúmeros resumos sobre a primeira carta encíclica do papa emérito Bento XVI, por isso o meu objetivo aqui não é realizar uma outra resenha ou síntese daquilo que o papa escreveu,visto que outros muito mais ilustres já o fizeram com maestria. Refletindo sobre a proposta, o que me veio em mente foi justamente realizar aquilo que este blog se propõe: ilustrar o tema proposto a partir da visão de um seminarista, suas experiências e as influências que o objeto apresentado tem em sua formação. Isto me leva a externar, desde já, que as palavras aqui escritas são uma tentativa de honrar a capacidade magnífica com a qual o papa emérito Bento XVI nos ensinou a amar Nosso Senhor Jesus Cristo, a Santa Igreja, a Sagrada Tradição e, como ele mesmo disse, a Santa Verdade, que é o próprio Deus.


Caritas Christi Urget Nos

“O Amor de Cristo nos impele” [1]

Uma das coisas que mais faço quando estou sozinho é levantar questionamentos, perguntar-me, tentar encontrar respostas a dilemas simples da vida, e também aos mais profundos e essenciais. Um dos temas mais recorrentes que me vem à reflexão é o sentido verdadeiro do amor. Ele sempre esteve presente e, confesso, é um dos que me trazem mais trabalho. Talvez por conta da “ditadura do barulho” interior e exterior, que o Cardeal Robert Sarah reflete durante o seu livro “A Força do Silêncio”, seja tão difícil contentar-me com as respostas. Ou talvez, a ânsia por respostas palpáveis ou que estejam de acordo com as minhas pobres convicções sejam as correntes que me seguram dentro da caverna – parafraseando a metáfora platônica acerca da aquisição do conhecimento – e que distanciam o intelecto da simplicidade com a qual Deus se apresenta ao homem.


Tendo em vista esta confissão pública deste pobre seminarista, a satisfação penitente a ela é, justamente, tentar deixar que o próprio Amor do Cristo seja o impulsionador desta busca pelo Amor. O adágio joanino que inicia a primeira encíclica do papa emérito Bento XVI, em sua simplicidade, responde a ânsia da humanidade e, por conseguinte, a minha também, de saber o que é e onde se encontra este amor: Deus caritas est – “Deus é Amor”[2]. Todavia, por que tem se tornado cada vez mais difícil para tantos conseguir compreender a simplicidade e a profundidade desta máxima, sendo que, o próprio Cristo mostrou, com palavras e obras, a natureza tão clara deste amor?


Certamente, Bento XVI responde aos tempos hodiernos este profundo dilema. Antes de tudo, para responder ao impasse faz-se necessário entender sobre o que se está afirmando ao se referir ao amor. Sobretudo, hoje, tanto por uma falta de precisão linguística, como também por uma confusão de significados, as pessoas podem não saber do que estão falando e o que estão sentindo, justamente porque não sabem o que significa ou o que é de fato o amor. Por isso, o papa emérito consome um vasto tempo discorrendo acerca do significado, sentido, e origem da palavra amor, desde a filosofia e a linguagem até chegar nos ensinamentos de Jesus Cristo.

O « amor » é uma única realidade, embora com distintas dimensões; caso a caso, pode uma ou outra dimensão sobressair mais. Mas, quando as duas dimensões se separam completamente uma da outra, surge uma caricatura ou, de qualquer modo, uma forma redutiva do amor. E vimos sinteticamente também que a fé bíblica não constrói um mundo paralelo ou um mundo contraposto àquele fenômeno humano originário que é o amor, mas aceita o homem por inteiro intervindo na sua busca de amor para purificá-la, desvendando-lhe ao mesmo tempo novas dimensões. Esta novidade da fé bíblica manifesta-se sobretudo em dois pontos que merecem ser sublinhados: a imagem de Deus e a imagem do homem[3].

Da teoria, o amor passa à prática, de uma forma jamais vista: Encarna-se! Como afirmou o Papa Francisco em uma de suas homilias matinais no início de seu pontificado[4], é um grande escândalo o amor de Deus ao encarnar-se e morrer numa Cruz. Talvez este passar da teoria à prática seja, para o homem moderno, também uma grande dificuldade, sobretudo em virtude de uma cultura que está pautada por tantas ideologias individualistas e ensimesmadas. Porventura, a cegueira atual provavelmente está em não conseguir enxergar, ou querer enxergar, que a visão do amor verdadeiro é uma dinâmica muito íntima entre o amor ao próximo e o amor a Deus.


Santo Agostinho já o dizia séculos atrás: “Immo vero vides Trinitatem, si caritatem vides”“Pois bem, sim, tu vês a Trindade se vires a Caridade”[5]. Para ver a Deus é necessário amar o próximo; se amo o próximo, é um passo bastante fecundo para conseguir ver a Deus. Certo, até aqui, pode ser que não exista uma novidade tão absoluta tendo em vista que o próprio Cristo já nos havia ensinado isso. Então, o que, de fato, é necessário para que Deus seja amor em nossas vidas e que este amor nos impila a dar a vida, como o próprio Cristo deu?


Poderia, aqui, responder, com toda a descrição de como a Igreja realiza esta kenosis de si que o magno papa emérito faz na segunda parte de sua encíclica, entretanto, já temos toda a Doutrina Social da Igreja que nos ajuda a refletir sobre a ação caritativa da Esposa de Cristo no mundo. Gostaria, pois, de me ater ao âmbito mais personalista desta ideia de amor – que certamente transborda para a ação – mas que, se não toca no íntimo do coração, transforma nossas ações em mero ativismo de consciência.


A parábola do Bom Samaritano[6], citada por Bento XVI em sua encíclica, demonstra claramente como o amor toca ao coração:

Enquanto o conceito de « próximo », até então, se referia essencialmente aos concidadãos e aos estrangeiros que se tinham estabelecido na terra de Israel, ou seja, à comunidade solidária de um país e de um povo, agora este limite é abolido. Qualquer um que necessite de mim e eu possa ajudá-lo, é o meu próximo. O conceito de próximo fica universalizado, sem deixar, todavia, de ser concreto. Apesar da sua extensão a todos os homens, não se reduz à expressão de um amor genérico e abstrato, em si mesmo pouco comprometedor, mas requer o meu empenho prático aqui e agora[7].

O empenho prático é de doação de vida. Amar é ver, é sentir compaixão – sentir com –, é cuidar. De fato, quando tomamos a decisão de amar – sim, amar é uma decisão – pode ser que nosso coração sofra. Tornamo-nos vulneráveis, assim como Cristo se tornou vulnerável por amor a nós: assumindo a condição de homem[8], sentindo compaixão, sofrendo os ultrajes que não merecia, decidiu-Se por amar até as últimas consequências. Sim, se tomamos a decisão de amar, a nós não é pedido menos que ir às últimas consequências, mesmo que, o nosso coração humano sofra; digo ‘o nosso coração humano’, não desvinculando a integridade do homem, mas salientando os aspectos mais passionais de suas ações, porque, de fato, se a sinceridade deste amor ao próximo for legítima, a humanidade pode até sofrer, mas a consciência diante de Deus fará dessa entrega um ato virtuoso, um ato heroico diante de Deus, sobretudo se atrelado a gratuidade.


C. S. Lewis em ‘Os quatro amores’ sintetiza um tanto quanto esta vulnerabilidade do amor que vai do eros, do philia, do caritas até chegar ao ágape:

Amar é sempre ser vulnerável. Ame qualquer coisa e certamente seu coração vai doer e talvez se partir. Se quiser ter a certeza de mantê-lo intacto, você não deve entregá-lo a ninguém, nem mesmo a um animal. Envolva-o cuidadosamente em seus hobbies e pequenos luxos, evite qualquer envolvimento, guarde-o na segurança do esquife de seu egoísmo. Mas nesse esquife – seguro, sem movimento, sem ar – ele vai mudar. Ele não vai se partir – vai tornar-se indestrutível, impenetrável, irredimível. A alternativa a uma tragédia ou pelo menos ao risco de uma tragédia é a condenação. O único lugar além do céu onde se pode estar perfeitamente a salvo de todos os riscos e perturbações do amor é o inferno.

O Cardeal Robert Sarah afirma, corroborando com Lewis: “A expressão mais sublime do Amor é o sofrimento”. Se queremos estar a salvo, decidamos por amar para vermos a caridade perfeita na visão beatífica. Do próximo mais próximo, ao próximo que não conheço, todos são dignos deste amor. Se assim o foi para Cristo, que dirá para nós que temos uma dívida de vida com Ele.[9]


Certamente, não é fácil. E, confesso-me mais uma vez a você, caro leitor: as vezes pode parecer que seja necessário um esforço sobre-humano para isso, mas os testemunhos dos santos nos mostram que é possível. Certas vezes, não é tão claro assim o porquê de amar, muitas vezes não enxergo e rezo a jaculatória que São Josemaria rezava quando encontrava alguma dificuldade no seminário: “Domine, ut videam” – Senhor, que eu veja. E, certamente, o Senhor nos dará, de alguma forma, a possibilidade de ver como deve ser a nossa ação diante da decisão de amar.


Por fim, não é possível que a meta deste amor não seja Deus. Se assim não for, dificilmente persistirá, ou até mesmo, dificilmente poderá ser chamado amor. O papa emérito traz essa conclusão ao citar os santos monges. “No encontro « face a face » com aquele Deus que é Amor, o monge sente a impelente exigência de transformar toda a sua vida em serviço do próximo, além do de Deus naturalmente”[10]. É Deus quem faz a obra, somos meros coadjuvantes nesta relação, mas colaboradores dos quais ele quer contar com sua amizade. “Deus é um amigo discreto que partilha alegrias, tristezas e lágrimas sem esperar nada em troca. É preciso acreditar nessa amizade”.[11]


Se me permite, gostaria de tomar a oração de Bento XVI à Virgem Santíssima, para encerrar este primeiro passo da Trilogia das Virtudes Teologais que o papa emérito construiu, consagrando a Ela, aquela que mais amou, os nossos amores: a Deus, aos próximos mais próximos e aos próximos que não o são, mas sendo, porque ela nos ensina que deve ser assim.

“Santa Maria, Mãe de Deus, Vós destes ao mundo a luz verdadeira, Jesus, vosso Filho – Filho de Deus. Entregastes-Vos completamente ao chamamento de Deus e assim Vos tornastes fonte da bondade que brota d'Ele. Mostrai-nos Jesus. Guiai-nos para Ele. Ensinai-nos a conhecê-Lo e a amá-Lo, para podermos também nós tornar-nos capazes de verdadeiro amor e de ser fontes de água viva no meio de um mundo sequioso.”[12]


[1] II Cor V, XIV [2] I Jo IV, XVI [3] Deus caritas est, n.8 [4] Cf. http://www.vatican.va/content/francesco/pt/cotidie/2013.index.2.html [5] AGOSTINHO, De Trinitate, VIII, 8 [6] Cf. Lc 10, 25-37 [7] Deus caritas est, n.15 [8] Cf. Fl 2, 4-8 [9] ROBERT SARAH, Força do Silêncio, n. 344 [10] Deus caritas est, n.40 [11] ROBERT SARAH, A Força do Silêncio [12] Deus Caritas Est, n. 42

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Pastores Dabo Vobis
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