Série Bento XVI: In te, Domine, speravi


“In te, Domine, speravi”[1]

Em ti, Senhor, esperei


Resvala sobre o mundo, nos dias de tensão que estamos vivendo, uma corrida para encontrar soluções para eliminar esta peste provocada por um pequeno vírus. Muitos têm sido “profetas” da catástrofe levando o desespero e a inquietude, sobretudo, aos menos favorecidos. Entretanto, também conseguimos encontrar notícias que trazem alento em meio ao caos e, para alguns é motivo de esperança. Mas o que seria esta esperança?


Esta é a pergunta que o Papa emérito Bento XVI responde em sua segunda Encíclica da Trilogia das Virtudes Teologais, Spe Salvi. O Santo Padre inicia seu texto com um versículo de São Paulo que exprime a origem e a finalidade da esperança cristã: “é na esperança que fomo salvos.”[2]. De fato, a esperança cristã difere daquilo que tem sido entendido por esperança no mundo justamente pela sua gênese e fim.


Na cultura da realização pessoal, do individualismo, do materialismo econômico e do coaching, o ato de esperar tem sido, quase sempre, relacionado a uma crença de realização positiva de algo que se espera, que se tenha planejado, ou que, se não foi planejado, ao menos atinja positivamente a pessoa que espera. Aí está o grande problema: nós não temos controle matemático e preciso de tudo o que acontece ao nosso redor e, muito menos, no mundo. Pode ser que tenhamos domínio sobre realidades pessoais, mas até mesmo estas sofrem influxo do ambiente que nos circunda e de vários outros fatores que podem mudar o trajeto daquilo que fora planejado anteriormente.


Essa não deve ser uma constatação que nos cause desânimo diante da vida. Pelo contrário, deve nos questionar aonde fixamos nossa fé, nosso alicerce. “O presente, ainda que custoso, pode ser vivido e aceito, se levar a uma meta e se pudermos estar seguros desta meta, se esta meta for tão grande que justifique a canseira do caminho.”[3] No que ou em quem estamos dispostos a atrelar a nossa confiança? Em coisas ou pessoas que, como nós, são efêmeras tanto nas atitudes, como também, na existência neste mundo? Ou na única e real certeza que temos e que é razão de nossa fé: Jesus Cristo?


Se nossa resposta é afirmativa para o primeiro questionamento, certamente vamos sofrer as intempéries que a agitação do mundo traz ao coração e que perturbam a alma sem encontrar soluções reais e perenes para nossos problemas. Agora, se optamos por ancorar nossa esperança Naquele que não passa, mesmo que os céus e a Terra se esvaiam[4], certamente mesmo em meio à agitação do barco, teremos certeza de que em quem pomos a nossa fé não nos abandona jamais.


Na iconografia cristã, um dos símbolos mais antigos é a âncora. Ela passou a representar a virtude teologal da esperança ligando seu significado à fé. Citando o primeiro capítulo da Carta aos Efésios, Bento XVI afirma que “a fé é a ‘substância’ das coisas que se esperam; a prova das coisas que não se veem”[5]. Ancorar nossa esperança no Senhor é justamente imitar esta ação realizada em uma embarcação: teoricamente, ao descer a âncora de uma embarcação, o marinheiro não tem total certeza de onde ela vai ancorar. Seus conhecimentos técnicos, sua experiência de vida, seu conhecimento geográfico, tudo isso pode colaborar para que ele tenha êxito, entretanto, sua certeza não é total, porque o ambiente marítimo, as marés e vários outros fatores podem alterar aquele lugar, sem contar os erros humanos dos quais ninguém está isento. Mas ele lança a âncora e espera que ela se fixe em algum lugar que segure sua embarcação com segurança.


Com a fé, diante de Deus, fixamos nossa vida em um porto seguro onde esperamos ser cuidados e, de fato, o somos. Na reflexão feita no dia da Benção Urbi et Orbi extraordinária por motivo da peste que assola o mundo, o Papa Francisco afirma que o Senhor nos interpela, em meio a tempestade, a despertar e ativar a esperança[6] que Nosso Senhor já infunde em nossos corações por meio do Sacramento do Batismo. De fato, pode ser que o mundo, por vários fatores, tenha nos roubado a esperança nas coisas que passam, mas nunca poderá nos roubar a certeza e, por isso, a espera daquilo que não passa: a Vida Eterna.


Confesso que, de fato, assimilar tudo isso no nosso coração exige certo esforço, nossa fé não é magia, não controlamos o sagrado. Nosso Senhor nunca prometeu facilidades mundanas, Ele sempre nos apresentou o caminho para a Vida Eterna com aquela chave com a qual Ele mesmo escancarou as portas do Céu: A Cruz! Entretanto, ao mesmo tempo que nos afirma este caminho, o Senhor também compromete-Se conosco afirmando, por meio do Apóstolo, que absolutamente nada poderá nos separar de seu Amor[7].


E, para que nada nos separe do Divino Amor, Ele nos dá meios de conservar a esperança verdadeira para que, peregrinos neste mundo, possamos alcançar a meta da Salvação por meio Dele. Sua Santidade, o Papa emérito, apresenta três lugares para aprender, conservar e firmar a esperança no Senhor em vistas de produzir no coração do cristão não só o alargamento desta virtude, como também, a possibilidade de difundi-la no mundo como que um farol que mostra o verdadeiro caminho para ancorar nossa fé.


O primeiro lugar que a nossa âncora deve se fixar é na oração. “Quando já ninguém me escuta, Deus ainda me ouve. Quando já não posso falar com ninguém, nem invocar mais ninguém, a Deus sempre posso falar. Se não há mais ninguém que me possa ajudar – por tratar-se de uma necessidade ou de uma expectativa que supera a capacidade humana de esperar – Ele pode ajudar-me.”[8] De fato, quantos são os testemunhos de pessoas que, sozinhas, sem ver mais sentido natural para a vida, encontraram esperança – e por isso, sentido sobrenatural – na oração, no contato com o Senhor. Bento XVI lembra o belíssimo testemunho do Cardeal Van Thuan que ficou encarcerado pelo regime totalitário de seu país por 13 anos. Seu sustento sempre foi a oração. Quando nada mais parecia fazer sentido para a visão humana, na solidão do cárcere, ele encontrou no Senhor a sua esperança. E este encontro se deu na oração. De suas orações recolhemos registros belíssimos de alguém que se abandonou totalmente nas mãos Daquele que é a única certeza, a única esperança.


Neste exemplo encontramos o segundo lugar de aprendizagem da esperança na vida do cristão: no agir e no sofrimento. O cardeal vietnamita não se deixou abater pela enorme dificuldade que passara. No sofrimento do isolamento e do cerceamento de sua atividade apostólica ele não deixou de ser pastor de almas. Conta-se que os guardas que vigiavam sua cela tinham que ser trocados de tempos em tempos porque Van Thuan os convertia. Humanamente é impossível pensar em alguém que, numa situação como essa, conseguiria transformar em algo do tipo. De fato, humanamente, mas lembremos que a graça auxilia aqueles que se dispõe a ela.


É bom lembrar, também, que neste mundo sofreremos. A ausência de sofrimento é atributo dos corpos gloriosos depois da ressurreição. E, se sofremos, outros também, sofrem. O cristão, pois, deve ser arauto da esperança para aqueles que sofrem. Temos visto, nestes últimos dias, grandes arautos da desgraça que tentam retirar a paz da sociedade, causando sensações bastante ruins por conta da peste. O Cristo, amparado sempre na verdade, precisa ser, com sua vida e suas ações, um dispensador da esperança evangélica. Não é uma virtude que deve ficar guardada somente para o sujeito, ela deve ser testemunhada. O mundo precisa escutar de nós: Não tenhais medo! Como fez ressoar da Praça de São Pedro para todo o mundo São João Paulo II no seu discurso de início de Pontificado.[9]


E, por fim, o terceiro lugar para aprender sobre a esperança é a fé no juízo final. O Papa Bento XVI não quer com isso trazer medo ou desespero. Pelo contrário, quer nos lembrar que não somos deste mundo. Aqui somos estrangeiros! “Um mundo sem Deus é um mundo sem esperança (cf. Ef 2,12). Só Deus pode criar justiça. E a fé dá-nos a certeza: Ele fá-lo. A imagem do Juízo final não é primariamente uma imagem aterradora, mas de esperança; a nosso ver, talvez mesmo a imagem decisiva da esperança.”[10] Queremos ver Deus. Para vê-Lo face a face, teremos que partir deste mundo. A morte, não pode ser, para o cristão, motivo de desespero. Enquanto o mundo com o discurso ateu prega um fim, contra a corrente, a mensagem do Cristo sempre falou de uma passagem. Certamente a dor da perda não é agradável e nem deve ser, seria loucura afirmar isso. Se amamos, causa dor a separação daqueles que se vão. Mas o que nos dá a tranquilidade de que existirá um encontro definitivo é a esperança da Salvação.


Esta terceira via de aprendizagem também deve nos auxiliar a levar com responsabilidade a nossa vida: fugir do pecado, correr para o Cristo. Recolher-se em oração, gritar para o mundo que o Jesus é o Senhor de nossas vidas.


Imaginemos que a Virgem Maria tivesse se desesperado e perdido a esperança quando viu seu Filho pênsil numa Cruz. Humanamente, ela tinha tudo para agir com desespero, questionar a Deus, revoltar-se com tão grande dor. Entretanto, a confiança Naquele que a escolheu era maior que tudo. Sua fé e sua postura foram testemunho de esperança para os discípulos que, depois da morte de Cristo reuniram-se ao seu redor para esperar o cumprimento da promessa – e essa é a imagem do Cenáculo. Quando rezamos com a Igreja o Ave Maris Stella pedimos a Santíssima Virgem que nos guie como estrela luminosa no mar às vezes escuro de nossas vidas. É a estrela de esperança que nos aponta o Senhor da esperança. E rezando, como certamente ela rezou, cantemos com o salmista: “Esperando, esperei no Senhor, e inclinando-se, ouviu meu clamor”[11] nestes tempos tão difíceis que temos vivido.



[1] São Josemaria Escrivá. Caminho n. 95 [2] Rm 8, 24 [3] BENTO XVI, Spe Salvi n. 1 [4] Cf. Mt 24, 35 [5] BENTO XVI, Spe Salvi n. 7 [6] Cf. https://www.vaticannews.va/pt/papa/news/2020-03/papa-francisco-homilia-oracao-bencao-urbe-et-orbi-27-marco.html [7] Cf. Rm 8, 38-39 [8] BENTO XVI. Spe Salvi n. 32 [9] Cf. http://www.vatican.va/content/john-paul-ii/pt/homilies/1978/documents/hf_jp-ii_hom_19781022_inizio-pontificato.html [10] BENTO XVI, Spe Salvi n.44 [11] Sl 39, 1

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Pastores Dabo Vobis
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