Série Bento XVI: Lumen Fidei, um tesouro à quatro mãos


É de livre conhecimento que o Santo Padre Papa Francisco, desde que fora apresentada a Carta Encíclica Lumen Fidei afirmou que a mesma fora iniciada e composta, em sua maioria, por seu antecessor, o Papa emérito Bento XVI. Louvável atitude e, sobretudo, uma riqueza sem precedentes: uma Encíclica papal escrita por dois papas em clara colaboração. Dileto leitor, nesses pequenos sinais, podemos perceber o amor de Deus por nós, talvez, por nossa geração que tem visto, em meio a tantos eventos que querem apagar a Luz de Cristo da humanidade, luzeiros que cada vez tem brilhado mais forte para mostrar que Ele está presente, que Ele se faz presente na história e não nos abandona.


O texto desenvolve a virtude teologal da fé a partir da perspectiva bíblica, mas também magisterial e testemunhal – esta última, característica patente do ministério do Papa Francisco –, levando em consideração as necessidades apostólicas da evangelização hodierna destacando nuances desta virtude que o Sumo Pontífice considera urgentes de serem recordadas.


Na introdução do texto, o papa realiza uma explicação sobre o título da obra Lumen Fidei – A luz da fé – rememorando a passagem do Evangelho de João em que Jesus afirma que veio ao mundo como luz para que aqueles que crerem nele não vivam nas trevas[1]. Ademais, ele realça a necessidade de escrever sobre o assunto tendo em vista o fato de que, a partir de determinado período histórico e de alguns movimentos filosóficos, fora elucidado que a fé seria uma luz ilusória que tão somente enganava e anestesiava a vida das pessoas. Por conta disso, na atualidade, esta luz que, em muitos momentos tentaram ofuscar, precisa ser redescoberta em vistas de iluminar toda a existência humana a partir do encontro com Deus que dá ao homem este dom sobrenatural, mas que necessita da abertura deste para atuar.


O capítulo primeiro tem como título “Acreditamos no Amor[2]”. O papa inicia este capítulo com um breve histórico do caminho da fé realizado na história da salvação destacando alguns pontos de maior relevância para o tema. Em primeiro lugar, realça a figura de Abraão, considerado o pai da fé sublinhando que, como a exemplo dele, o homem deve apreender a fé pela escuta, sendo ela uma resposta a um chamamento pessoal feito por uma Palavra. Além disto, frisa a fé do povo de Israel que é transmitida de geração em geração, mas tem iniciativa da parte de Deus que se manifesta e é o meio pelo qual o povo assente em realizar um longo caminho, sendo isto, uma narração bastante concreta da relação entre Deus e o homem. Em contrapartida, enfatiza que se a fé não for compreendida e aplicada de maneira pura e em vistas de Deus ela pode se tornar idolatria, chegando até a uma incredulidade. O ápice do caminho de fé é o vértice no qual converge toda a história da salvação: Jesus Cristo. Nele a fé cristã está centrada e Nele, também, está à síntese de tudo aquilo que é necessário crer para alcançar a salvação, dado que é Ele mesmo que salva. Esta fé, por vontade de Deus, dilata-se de forma tal que alcança um número grande de pessoas e a mesma está salvaguardada nessa comunidade de crentes que é a Igreja fundada por Cristo. Por isso, a fé não é tão somente um fato pessoal, mas também, eclesial pelo fato de que através da voz da Igreja tem-se a possibilidade de discernir os aspectos que se referem a este dom sobrenatural.


O título do segundo capítulo “Se não acreditardes, não compreendereis[3]” faz referência às relações que o ato de fé tem com as reflexões filosóficas, sobre a verdade, o conhecimento e a aquisição do mesmo, bem como o caminho que se percorre para realizar o diálogo entre fé e razão a fim de chegar a uma busca sincera por Deus. O Papa destaca a crise atual pelas quais a verdade passa sendo imersa em um relativismo violento. A solução que ele apresenta é relacionar o conhecimento da Verdade com o amor atrelado ao diálogo saudável e honesto com a razão, partindo da totalidade do homem que é união substancial de corpo e alma e, por isso, todos os aspectos do conhecimento passam por esta totalidade. Este diálogo entre fé e razão leva o homem honesto a buscar a Deus através dos sinais e experiências com Ele traçando o caminho do bem e sustentado pela graça dessa virtude dada por Deus. Vale lembrar que este tema da união entre a fé e a razão tem sido um tema caro nas palavras dos últimos papas: São João Paulo II escreveu uma Encíclica sobre o tema intitulada Fides et Ratio, o Papa emérito Bento XVI, em inúmeros discursos e homilias insistiu (como nesta Encíclica) para a necessidade de as duas realidades humanas caminharem juntas para guiarem o homem, e Sua Santidade Papa Francisco tem feito um apostolado para apresentar esta união não só para os cristãos, mas também, para a humanidade em gestos concretos.


O capítulo terceiro é intitulado “Transmiti-vos aquilo que recebi[4]”. Destaca que o arcabouço da fé é mantido pela Santa Igreja Católica por mandado do próprio Jesus. Sendo dom, a fé não pode ser escondida e guardada como um tesouro escondido, mas deve ser partilhada e multiplicada através da transmissão das verdades de fé que os fiéis recebem na Igreja através dos Sacramentos e do anúncio da Palavra de Salvação. Destacando o Batismo e a Eucaristia, o papa afirma que os Sacramentos, essa manifestação de fé, é vivida em comunidade que conduz o mundo visível ao invisível, o imanente ao transcendente, o físico ao espiritual. A fé, pois, manifesta-se na obediência a Lei de Deus, mas também, no fato de que se a pessoa crê, ela quer se comunicar com o objeto de sua fé. Isso se dá através da oração. No que diz respeito à dimensão eclesial da fé, o papa destaca, também, que ela é princípio de unidade, rememorando a carta aos Efésios[5] que diz que na Igreja há uma só fé. Ademais a Igreja salvaguarda a integridade da fé, justamente pelo fato do mandato de Jesus, através desta unidade, e esta integridade deve ser defendida até a vinda gloriosa de Jesus.


No último capítulo que tem por título “Deus prepara para eles uma cidade[6]” o Santo Padre faz um apanhado das formas as quais o cristão tem condições de colocar sua fé em prática, levando-os a edificar caminhos que possam fazer com que os homens vivam bem rumo ao Reino definitivo. A fé é iluminadora das relações entre os homens e a busca do bem comum, pelo fato de que vem de Deus e o próprio Deus “preocupa-se” com tal, fundamentando, pois, as relações humanas no seu fim último que é a beatitude. A fé, portanto, é luz para as células Mater da sociedade, as famílias, levando em consideração que são os primeiros lugares onde se desenvolve a fé de uma pessoa e, sendo iluminado por uma fé viva dentro da família, o sujeito estará pronto para ser luz na sociedade, refletindo a vida cristã em todos os lugares os quais for e testemunhando com a vida a responsabilidade moral na vida em sociedade, bem como, possibilitando uma visão clara da realidade. Um destaque que o papa faz é de que, na vida comunitária a fé é um elemento primordial para consolar os irmãos e a sociedade sofrida em que muitos vivem. A fé em Deus é a única ação capaz de iluminar o homem na hora da prova e do sofrimento dando sentido transcendental a estes.


Por fim, na conclusão, o papa toma como exemplo aquela que mais viveu esta virtude teologal, a Virgem Maria. Ele realça o fato de que a fé da Virgem Santíssima fora cheia de frutos, porque de fato ela se empenhou em responder com profundidade o chamado do Senhor, como também, é digna de fé por estar intimamente ligada a Jesus Cristo, em quem o cristão adere com este dom.


A Carta Encíclica do Papa Francisco conclui majestosamente a trilogia das virtudes teologias iniciada pelo Papa emérito Bento XVI que escreveu sobre a Caridade Deus caritas est e sobre a Esperança Spe Salvi. De fato, se lidas em retilínea continuidade, perceber-se-á que as preocupações de aplicação e vivência das virtudes em ambas tracejam pelos mesmos caminhos.


Os focos capitulares que o Papa decidiu por utilizar permitem que o leitor perceba, de forma bastante nítida, um caminho de estudo e aplicação do conteúdo. Começando pela História da Salvação, passa pelos diálogos com a razão e com a filosofia para chegar à atuação do crente. Salvaguardando a Sagrada Escritura e resumindo cada capítulo com os títulos que propõem, consegue realizar uma síntese daquilo que será desenvolvido em cada capítulo, além de mostrar que a temática é sempre atual, sendo ela nos tempos bíblicos ou na hodiernidade.


Além disso, a capacidade de síntese é louvável, tendo em vista que em poucos pontos consegue-se abranger inúmeras necessidades do tema na atualidade sem empobrecer a qualidade do texto. Outro destaque é a capacidade de realizar uma continuidade das temáticas da trilogia, sem romper uma linha de pensamento que já fora iniciada pelo antecessor.


Por fim, tal obra, como ela mesma se “auto destina”, pode ser proposta para todos os fiéis, clérigos, religiosos e leigos da Igreja Católica, mas também, para toda a sociedade e, sobretudo as pessoas de bem, que desejam crescer em virtude e se aproximar da verdade. Certamente, caro leitor, os textos produzidos para homenagear Sua Santidade o Papa emérito Bento XVI nestas três últimas semanas são pouco, tamanho o serviço que este grande homem prestou a Deus e à Santa Igreja, mas acredito que, se cada um daqueles que tiver acesso a estes comentários puder rezar pelo Papa Emérito e pelo Papa reinante já estará, diante de Deus, prestando uma belíssima homenagem a eles que foram escolhidos para conduzir a Barca de Pedro, de zelar e cuidar da Esposa de Nosso Senhor. Ademais, nos tempos difíceis que estamos vivendo, certamente as palavras do Vigário de Cristo na Terra são sinal do cuidado de Deus por nós.

[1] cf. Jo 12, 46 [2] cf. I Jo 4, 16 [3] cf. Is 7, 9 [4] cf. I Cor 15, 3 [5] cf. Ef 4, 4-5 [6] cf. Hb 11, 16 Autor:


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