Sacerdote, o Bom Pastor


George Bernannos, no livro “Diário de um Pároco de Aldeia”(1936), nos apresenta ao anônimo pároco de Ambricourt. Por meio do diário, ele introduz o leitor ao dia a dia, às reflexões e às angústias do protagonista: o padre nota com tristeza – e até com alguma desesperança – que seu rebanho é tomado pelo ennui, uma espécie de tédio espiritual que cresce, dia após dia, como um câncer silencioso frente ao qual ele se sente impotente. Vemo-lo logo nas primeiras páginas:

“Minha paróquia é devorada pelo tédio, essa é a palavra certa. Como todas as outras paróquias. O tédio a devora diante de nossos olhos, e não há nada que possamos fazer. (…) A ideia me veio ontem, na estrada. Estava caindo uma daquelas chuvas finas, que a gente engole a plenos pulmões, e que chega até o estômago. Da ladeira de Saint-Vaast, a aldeia me surgiu de repente, tão apertada, tão miserável sob o céu medonho de novembro. A água fumegava sobre ela por todos os lados e ela parecia ter-se deitado ali, na grama gotejante, como um pobre animal exausto. Como uma aldeia é pequenina! E esta aldeia é minha paróquia. Era minha paróquia, e eu não podia fazer nada por ela; eu a olhava tristemente afundar-se na noite, desaparecer… Mais alguns momentos, e eu já não a veria. Nunca havia sentido tão cruelmente a sua solidão e a minha.”

Nas páginas de seu diário, o padre nos conta da doença que lhe dói no estômago e o impede de se alimentar, dos incômodos com as crianças da catequese, da luta para angariar o dinheiro necessário às obras da paróquia, enfim. Não nos poupa de nada, graças a Deus, e assim o leitor é, devagar, introduzido à alma deste sacerdote, deste pastor, que, de maneira incansável, deixa todos os dias a casa paroquial e vai em busca das ovelhas de seu rebanho. Luta por elas, mas luta também por si, por sua própria alma, para melhor configurá-la a Cristo.

Uma das relações mais interessantes no livro de Bernannos é a que se estabelece entre o padre e Chantal, a filha mais velha do Conde Omer. Louise, uma paroquiana, trabalha no castelo como preceptora e, um dia, após a missa, pede para conversar com o padre e desabafa sobre o comportamento cruel de Chantal, que parece ter prazer em humilhá-la. Louise, então, pede ao jovem sacerdote que a ajude a lidar com a menina e visite o castelo, onde ele começa a conhecer o caso de Chantal e os dramas familiares que a circundam. As coisas se desenvolvem a partir daí, mas o que impressiona é como o padre não desiste de Chantal – humanamente, a menina é desprezível: dona resoluta de um coração empedernido, vingativa, quase sádica. A jovem chega ao ponto de espalhar histórias a seu respeito, mas isto não o incomoda: o que lhe inquieta é a tristeza da “senhorita Chantal”, como a chama. Conforme o livro avança, a situação piora: é nítido que Chantal está por trás dos boatos que destroem sua honra e lhe põem em risco de ser transferido, mas, quanto mais foge a ovelha, quanto mais se esconde em meio aos espinheiros, mais decidido a ajudá-la fica o padre, mais consciente da fragilidade daquela alma e do sério risco espiritual que ela corre.

Percebemos, com o desenvolver da história, que o jovem pároco de Ambricourt é imagem do Bom Pastor: ele dá a vida por suas ovelhas[1]: entrega sua honra, seu tempo, o pouco que lhe resta da própria saúde. Mais do que dar a vida em um ato único e heroico de martírio, ele morre todos os dias, deixando um pouco de seu sangue em cada espinheiro, em cada barranco que enfrenta para resgatar as ovelhas perdidas[2]. Suas ovelhas conhecem a sua voz[3], ele as conhece e, mesmo perdidas, elas respondem ao seu chamado – a própria Chantal, apesar de sua maldade, sua tristeza e seus pecados, retorna ao padre com frequência. Mesmo a contragosto, ela sabe que está perdida, e reconhece, na figura do padre, as ações Daquele que a guiará às águas tranquilas e restaurará sua alma[4].

George Bernannos, católico devotíssimo que era, nos introduz à vida interior de um homem santo – um homem consciente de sua dependência da graça, constrangido por suas próprias limitações, mas que, por amor ao rebanho que lhe foi confiado por Deus, avança, todos os dias, rumo ao abismo que o separa de suas ovelhas… e, todos os dias, surpreende-se ao encontrar terra firme sob os pés.

Eis aí um aspecto do pastoreio que pouco se vê associado ao sacerdócio: a angústia. Nunca fui pastor, como também nunca fui sacerdote, mas sei que ovelhas são animais terrivelmente tímidos, e que leva tempo até se acostumarem a um novo pastor – posso somente imaginar o que se passa na mente do homem que, todos os dias de madrugada, deixa o calor da casa e os braços da esposa para tentar pastorear ovelhas que se apavoram e se afastam ao vê-lo. Quanto tempo até se acostumarem à sua presença? Quantos dias, quantas semanas passadas em frustração? Então, passado sabe-se lá quanto tempo, finalmente o rebanho o reconhece – finalmente ele chama e as ovelhas o atendem, seguem-no tranquilas em direção ao pasto. Mesmo aí, o trabalho acaba de começar: ele tem pela frente dias inteiros de caminhada sob o sol, sob a chuva e a neve; tem pela frente a vigilância constante, na expectativa de predadores; os espinheiros nos quais metem-se as ovelhas perdidas, os cortes e hematomas que ganhará nas horas passadas em seu encalço e, quando finalmente as tiver alcançado, só lhe espera a promessa de mais um problema: ovelhas saudáveis não deixam o rebanho, e se uma perdeu-se, há algo de errado – algo que cabe a ele solucionar.

Mutatis mutandis, isso não é muito diferente do que um sacerdote tem pela frente ao assumir seu ministério, com exceção de uma coisa: ele não está lidando com ovelhas. À suas mãos foi confiada, por Deus, a salvação das almas. Almas humanas, criadas à imagem da Santíssima Trindade, feitas para contemplar a glória do Trono Celeste. Se o trabalho do pastor de ovelhas parece angustiante, ainda mais o é o do padre – onde o pastor pode perder uma ovelha e encontrá-la morta, o sacerdote precisa saber que, a despeito de seus maiores esforços, algumas almas serão perdidas. Talvez a maioria.

Com as coisas nesta perspectiva, podemos revisitar a cena que citei no começo deste artigo: um sacerdote, sob a chuva, pausa sua caminhada na encosta de um morro e observa o contorno da pequena vila que é sua paróquia; presta atenção nas formas escuras que se mexem ao longe, e medita sobre o mal que vê, dia após dia, corroer a vida de seus filhos – o ennui, o vazio da alma, a indiferença, o esquecimento do sagrado. Ele enxerga as almas que lhe foram confiadas e reconhece a verdade: estão escapando por entre seus dedos. Muitas daquelas pessoas estão cada dia mais distantes do Céu, mais separadas de Deus – mais próximas do inferno. E ele é só um homem!

Numa situação como essa, por que seguir em frente? Por quê? Tudo o que ele vê é tristeza, tudo o que sente é angústia. Por que insistir, forçar mais um passo? Ele segue em frente pois angústia não é tudo o que sente. Ele ama seu povo, ama seu rebanho. No sofrimento oculto e na luta diária, o sacerdote já participa da vida de Nosso Senhor, que dava a vida por suas ovelhas muito antes do início da Paixão, mas participa também de algo maior: o amor redentor de Jesus Cristo, que dá sentido ao sofrimento e ilumina, com a esperança, o vale da sombra da morte[5].

Lemos, no livro “Imitação de Cristo”[6], que “grande coisa é o amor: bem verdadeiramente grande, só ele faz leve o que é pesado e suporta com igual ânimo todas as perturbações. Porquanto leva a carga sem lhe sentir o peso, torna doce e saboroso o que é amargo”. Aí está o motivo para a insistência do pastor – sua participação ontológica no amor de Cristo faz com que conheça o valor infinito de uma só alma que, valendo o Diviníssimo Sangue do próprio Deus encarnado, vale, também, o seu suor. Ele reconhece que é, em sua humanidade, incapaz, que não dá conta de pastorear as ovelhas; mas a sua esperança está na consciência de que não é ele que trabalha: unido ao próprio sacerdócio de seu Senhor, o padre sabe que o poder de Deus aperfeiçoa-se na fraqueza do homem[7] e que o próprio Jesus lhe dá a força que, sozinho, não possui. No fim, é o próprio Bom Pastor que, por meio do trabalho humano, apascenta Suas ovelhas.

Assim, frente à sombra de uma paróquia consumida pelo vazio espiritual, ou de um rebanho composto inteiramente de ovelhas perdidas, o sacerdote pode, sorrindo, dizer com tranquilidade e confiança as mesmas palavras que, no fim de sua vida, disse o pároco de Ambricourt: “Tudo é graça.”

[1] Cf. Jo 10, 15 [2] Cf. Lc 15, 4-6 [3] Cf. Jo 10, 27 [4] Cf. Sl 23 [5] Cf. Sl 23 [6] Imitação de Cristo, III, 5, 3 [7] Cf. 2Cor 12, 9 Autor:


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