Sacerdote, o homem da Misericórdia



Conseguinte a narrativa da ressurreição no Evangelho segundo João, vemos claramente nas Sagradas Escrituras o mandamento de Jesus aos seus discípulos: “Como o Pai me enviou, também eu vos envio. Dizendo isto, soprou sobre eles e lhes disse: Recebei o Espírito Santo. Aqueles a quem perdoardes os pecados ser-lhes-ão perdoados; aqueles aos quais retiverdes ser-lhes-ão retidos”[1]. Está aqui a autoridade que Jesus mesmo deu aos discípulos de perdoar os pecados, um mandamento que confere aos seus por meio da Igreja.


“Nas mãos e na boca dos Apóstolos, seus mensageiros, o Pai depôs misericordiosamente um ministério de reconciliação, que eles exercem de maneira singular, em virtude do poder de agir in persona Christi[2]. Presentemente, vemos os sacerdotes encarregados deste ofício, ora, pois são estes os outros discípulos que, como aqueles discípulos de Jesus, dispensam os sacramentos – sinais visíveis, da graça invisível – a todos nós. E aqui, queremos evidenciar isto, o sacerdote, como homem da misericórdia, dispensador das graças de Deus.


Seguindo as palavras do Santo Padre o Papa Francisco, na Bula Misericordiae Vultus: “Jesus Cristo é o rosto da misericórdia do Pai”[3] ou ainda “Jesus de Nazaré revela a misericórdia de Deus”[4], vemos claramente como deve ser o agir do sacerdote, o qual sendo um outro Cristo necessita ser também o rosto da misericórdia de Deus, acolhendo e agindo com compaixão.


Assim, parece-me relevante pontuar que para haver esse encontro do padre – ministro e servo de Deus – com o penitente, o sacerdote mesmo deve fazer e viver a experiência da misericórdia. Pois é fazendo essa experiência de ser alcançado e acolhido pela misericórdia divina que o sacerdote conseguirá revelar a misericórdia de Deus; fazendo a experiência do filho pródigo que volta a casa do Pai, o padre fará, pela graça de Deus e por meio da Igreja, com que outras pessoas também façam essa conversão; com que outras pessoas façam a experiência deste reconciliar-se com Deus. E a Igreja nos recorda: “Ao celebrar o sacramento da Penitência o sacerdote exerce o ministério do bom Pastor que procura a ovelha perdida; do bom Samaritano que cura as feridas; do Pai que espera pelo filho pródigo e o acolhe no seu regresso; do justo juiz que não faz acepção de pessoas cujo juízo é, ao mesmo tempo, justo e misericordioso”[5].


Neste sentido, percebemos um duplo aspecto: a experiência da misericórdia e o ofício de atender a confissão; deste modo o sacerdote santifica-se a si e aos outros. Isso se dá, sobretudo, no confessionário, lugar próprio da confissão, local no qual é dado o perdão e manifestado o sinal de reconciliação. “É necessário voltar ao confessionário, como lugar no qual celebrar o sacramento da reconciliação, mas também como lugar onde “habitar” com mais frequência, para que o fiel possa encontrar misericórdia, conselho e conforto, sentir-se amado e compreendido por Deus e experimentar a presença da Misericórdia Divina, ao lado da Presença real na Eucaristia”[6].

Vemos este ofício sendo exercido com tamanho amor pelo padroeiro dos sacerdotes, o Cura D’Ars, que incansavelmente atendia os penitentes concedendo-lhes o perdão e exortando-os à conversão, à mudança de vida. Junto da celebração do santo sacrifício da missa, o sacramento da reconciliação eram os meios pelos quais São João Maria Vianney se santificava e conduzia os fiéis à santidade. “Quando o sacerdote nos dá a absolvição, devemos pensar numa só coisa: que o sangue de Deus corre sobre nossa alma para lavá-la, purificá-la e torná-la tão bela como era após o batismo”[7]. Com que grande amor e disponibilidade este santo nos serviu, sendo de fato um modelo para nós.


Possivelmente, seja esse um dos aspectos centrais da figura do sacerdote e bom pastor, sendo para nós critério de discernimento vocacional, pois a medida e qualidade com a qual nos confessamos e a importância que damos a este sacramento revelam o reconhecimento da nossa fraqueza e a total dependência da graça de Deus. E São João Paulo II nos diz: “Gostaria de reservar uma palavra especial para o sacramento da Penitência, do qual os sacerdotes são ministros, mas devem ser também beneficiários, tornando-se testemunhas da misericórdia de Deus pelos pecadores”[8]. Deste modo, o sacerdote não é o senhor, mas servo do perdão.


Enfim, aquele que é homem do altar, pastor que conduz as almas e filho predileto da Virgem Maria, é também chamado a ser o homem da misericórdia, a resplandecer no mundo a misericórdia de Deus, misericórdia que gera conversão e vida nova.

[1] Cf. Jo 20, 21-23 [2] Cf. Reconciliatio Paenitentia, n.8, pg 10 [3] Cf. Misericordiae Vultus, pg 1 [4] Cf. Conc. Ecum. Vat. II, Const. dogm. Dei Verbum, 4. [5] Cf. Catecismo da Igreja Católica, n. 1465 [6] Cf. BENTO XVI, Alocução aos participantes do XXI Curso sobre o Foro Interno organizado pela Penitenciaria Apostólica, 11 de março de 2010. [7] Cf. Intimidade com Deus: pensamentos de São João Maria Vianney, o Cura D’Ars [8] Cf. Pastores Dabo Vobis, n. 26, pg 70 Autor:


Pastores Dabo Vobis
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