Sacerdote, o homem do Altar

Iniciando esse mês vocacional, temos a alegria de anunciar que os quatro textos a serem publicados no blog nesse mês serão destinados a uma série sobre a vida sacerdotal. Cada um dos quatro textos visa abordar um aspecto diferente de tão grande dom e mistério, que é a vocação sacerdotal. Esperamos que seja de bom proveito para o leitor e que possamos crescer sempre mais no amor pelo sacerdócio católico. Deixamos vocês então com o primeiro texto dessa série: Sacerdote, o homem do altar.


Em uma sociedade que pouco valoriza o sagrado e o transcendente, caracterizada por um materialismo desenfreado e uma busca de autossuficiência, pouco se medita sobre a grandeza do sacerdócio e da sua autêntica identidade. De fato, não poucas crises vocacionais e de identidade sacerdotal na Igreja Católica partem de uma compreensão irreal ou meramente subjetiva daquilo que identifica o sacerdote e qual é a sua verdadeira razão de ser.


Assim, cabe-nos uma pergunta intrigante: o que de fato é o sacerdote e para que ele serve? Para tal, é mister analisar, mesmo que de forma breve, o sacerdócio de Cristo e a grandeza do Santo Sacrifício da Missa.


Desde a antiguidade, mesmo nas religiões pagãs, o sacerdote era visto como o homem do divino, do transcendente, mediador entre a divindade e a comunidade. Em uma análise histórica e sociológica, o sacerdócio no paganismo tinha uma alta significação, bem como o altar, que sempre esteve ligado ao sacrifício e a imolação, o que leva muitos a concordarem que “não pode haver religião sem altar, sem sacrifício e sem sacerdote”.[1]


Todavia, é no catolicismo que o sacerdócio alcança uma dignidade superior e incomensurável. De fato, o sacerdote por excelência, que liga Deus e os homens, é o próprio Cristo, sumo e eterno sacerdote[2], verdadeiro Deus e verdadeiro homem. Isto é, em Cristo, o sacerdócio atinge sua plenitude e alcança sua inenarrável proeminência: Deus, em uma união eterna, liga os homens a Si por meio da Encarnação do Verbo e nos salva por meio do Seu sacrifício redentor no mistério da Cruz. Vemos que:

“o Filho aceita jubilosamente, generosamente a missão que lhe é confiada; desde o primeiro momento da Encarnação, oferece-se a seu Pai como vítima, para substituir todos os sacrifícios da antiga Lei, e toda a sua via não será mais que um longo sacrifício, completado pela imolação do Calvário, sacrifício inspirador pelo amor que nos tem” (TANQUEREY, p. 76, 2017).

Isto significa que Cristo é sacerdote desde o primeiro momento da concepção virginal de Maria, pois é autêntico pontífice entre as coisas de Deus e dos homens[3], donde resulta que toda sua vida foi um ato sacerdotal e de entrega a Deus.


É importante salientar que o sacerdócio de Cristo tem um duplo e inseparável aspecto: aquele que oferece o sacrifício é, ao mesmo tempo, a vítima oferecida. É nessa perspectiva que podemos rezar a Deus Pai junto com Santo Agostinho: “Tudo ele fez por nós, diante de ti vitorioso e vítima, vitorioso porque vítima. Por nós, diante de ti sacerdote e sacrifício, sacerdote porque sacrifício”[4]


Assim, o sacerdócio, pleno em Cristo, é caracterizado tanto pela pessoa que oferta como pela própria pessoa em si que se oferta, onde, então, Cristo é verdadeiramente sacerdócio, altar e vítima.[5]


Levando isso em consideração, o sacerdote ordenado é chamado à perfeita identidade de vida com o único e eterno sacerdote. A verdade é que:

“o sacerdócio católico é divino em sua origem: foi Deus feito homem que o instituiu; em suas funções: é o poder de Deus em ação; em seus frutos: ele santifica, salva o mundo. Quem ousaria então pretender a essa sublime dignidade? Quem se poderia julgar digno? Ninguém, mesmo se possuísse a pureza de um anjo, o amor de um serafim” (EYMARD, 2017, p. 19)

Nessa perspectiva, sua realização ontológica e moral passa por uma oblação contínua, pura e agradável por amor a Deus em favor Dele e da salvação dos homens. E, de maneira a cumprir sua total imersão no mistério cristológico e sacramental no qual faz parte, o ponto culminante do seu dia e do seu ministério é justamente a oferta do único sacrifício de Cristo por meio da Santa Missa, onde “o sacerdote exerce realmente o ofício de Jesus Cristo”[6].


Isto significa que, enquanto autêntico ministro do eterno sacerdote, participando do seu sacerdócio, a vida de um bispo ou de um padre necessita ter sua razão de ser na imitação da vida de Cristo, que desde sempre foi sacerdotal e que teve seu ápice na cruz. E, assim, disso resulta que “sendo o sacerdócio ministerial uma participação do único sacerdócio de Cristo, nenhum sacerdote pode sê-lo plenamente se não se oferecer em holocausto como Aquele de que é ministro e em cuja pessoa age.”[7], de forma especial na Sagrada Liturgia.


Destarte, o sacerdote ministerial é chamado a uma vida de vítima e de ofertante, de imolação e entrega, de culto e adoração, tendo como ponto culminante a oferta do mesmo sacrifício de Cristo na Cruz, que mesmo de forma incruenta, é presentificado na Santa Missa. Nela, “o sacerdote estende as mãos sobre o cálice e a hóstia, à semelhança do que fazia outrora o Sumo Sacerdote sobre a vítima que era imolada em expiação pelos pecados. Jesus, única vítima digna de Deus, vai ser imolado por nós”[8].


Mais que uma vida, o ministério sacerdotal é o sacrifício de uma vida constantemente imolada e obediente em ofertar, pois “o amor transforma os sacrifícios em alegrias”.[9] Isto posto, sua principal força e seu ápice, sua origem e sua finalidade estão no altar, lugar do sacrifício e da oblação, onde se torna instrumento para a glória de Deus Uno-Trino, tendo em vista que “a Santa Missa é o culto mais perfeito, a homenagem soberana e infinita rendida a Deus pelo Deus feito homem”.[10]


Longe de um puritanismo, escrúpulo litúrgico ou, do lado oposto, uma imanentização do mistério, a Liturgia, posto que é ação sacerdotal de Cristo que age por meio da Igreja para nos alcançar a graça, deve ser prezada e vivenciada pelo sacerdote como o ponto sublime do seu ministério. Não deve se tornar uma tarefa ordinária e sem brilho, obnubilada pelo indiferentismo e pela falta de sacralidade.


Também não é demais sublinhar que se conhece o sacerdote mediante a sua conduta e entrega ao celebrar o Santo Sacrifício, onde ali transparece a participação do padre ou bispo no grande mistério da Redenção perpetuado e dispensado por meio das divinas palavras e dos divinos gestos exercidos perante o altar.


Então, é nessa consciência da grandiosidade sacerdotal que a identidade do sacerdote se ilumina. Todos os sacerdotes, participando do único sacerdócio de Cristo, são chamados a oferecerem o único sacrifício agradável a Deus, “pois é o próprio Filho de Deus que se oferece em sacrifício”.[11] Por isso podemos dizer com veemência e segurança: o sacerdote é o homem do altar, que, por meio da Sagrada Liturgia, enquanto ação mais sagrada e plena da Igreja[12], in persona Christi, age de forma singular para a glória de Deus e a salvação das almas.

[1]https://apologistasdafecatolica.wordpress.com/2019/03/20/sacerdote-altar-vitima/ acesso em 27/07/2020 às 14:59 [2] Cf. Hb 3,1 [3] Cf. 1 Tm 2,5 [4] Liturgia das Horas, Vol. IV, 2000, p. 483 [5] CONGREGAÇÃO PARA O CULTO DIVINO. Missal Romano. São Paulo: Paulus, 1997, p. 425 [6] SAINT-OMER, Edouard. Escola da perfeição cristã. São Paulo: Cultor de Livros, 2016, p. 660 [7]https://padrepauloricardo.org/episodios/sacerdotes-e-vitimas acesso em 21/07/2020 às 11:51 [8] VASCONCELOS, Dom Bernardo de. A missa e a vida interior. São Paulo: Cultor de Livros, 2015, p. 81 [9] Ibidem, p. 27. [10] EYMARD, São Pedro Julião. Considerações espirituais: Sacerdócio e vida cristã. São Paulo: Cultor de Livros, 2017, p. 49-50 [11] SAINT-OMER, Edouard. Escola da perfeição cristã. São Paulo: Cultor de Livros, 2016, p. 659 [12] Cf. Constituição Conciliar Sacrossantum Concilium sobre a Sagrada Liturgia, nº 7.


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Pastores Dabo Vobis
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