Santidade e trabalho: é possível?

Grande parte da vida de uma pessoa é trabalhando. Devido a isso, ficamos com pouco tempo para estar com Deus. Além disso, tantas vezes estamos reclamando de nossos ofícios e não os realizamos da melhor forma por preguiça. Quando olhamos por essa perspectiva, realmente o trabalho vem como um peso em nossas vidas. Mas não devemos de alguma forma tentar melhorar isso e tornar o trabalho de alguma forma agradável? Não estamos sendo medíocres vivendo em uma situação difícil sem tentar melhorá-la?


Deus colocou o homem no jardim do Éden para cultivá-lo e guardá-lo[1]. Ou seja, para que o homem trabalhasse naquele local. A partir disso, percebemos que o trabalho para Deus é algo desejado. Devido a isso, deve ser um meio de santificação. As ocupações que o homem tem não devem ser consideradas como uma perda de tempo, já que são desejadas pelo Senhor, mas sim como um meio de estar com Deus e levá-Lo aos outros. Elas são uma forma de as pessoas se santificarem sem mesmo saírem de suas rotinas e, por isso, devem ser aproveitadas.



Pode-se, nas pequenas coisas do dia, estar próximo do Senhor e torná-Lo presente aos outros. Santa Teresinha, no Carmelo de Lisieux, estabeleceu a pequena via de se chegar a Deus. Não foram ações grandiosas, mas sim pequenas, porém com intensidade e com amor, que a levaram a santidade. Em cada momento ela se colocava na presença do Senhor e oferecia o que iria realizar pela salvação das almas.


Colocando amor nas pequenas situações do dia, podemos santificar o trabalho. A santidade associada ao trabalho pode ser vista sob três perspectivas: santificar o trabalho em si; santificar a si mesmo no trabalho; e santificar o outro. O trabalho auxilia na obra salvadora de Cristo, pois, assim, conseguimos nos oferecer nas pequenas coisas e também evangelizar os outros. Dizia São Josemaria Escrivá: “Põe um motivo sobrenatural na tua atividade profissional de cada dia, e terás santificado o trabalho”[2]. Esse é um caminho a ser seguido.


Quando dizemos que o trabalho em si pode ser santificado, temos a ideia de que ele pode ser sempre melhorado em qualidade e eficiência. Fazer bem e com perfeição os nossos deveres agrada a Deus, que criou o mundo perfeitamente e viu que era bom[3]. Dessa forma, é possível nos aproximarmos mais do Senhor.


A outra forma citada é a de se santificar no trabalho. Ao nos sacrificarmos nas pequenas coisas, com pequenas mortificações, unimo-nos ao sacrifício de Cristo na cruz. Conseguimos, por meio da perseverança, entender, mesmo que em pequena proporção, o amor perseverante que Jesus teve ao carregar sua cruz. Além disso, percebemos quão medíocre somos nas pequenas coisas e como podemos ter um coração grande e desejoso de fazer as coisas bem.


A terceira forma é a de santificar o outro no trabalho. Por meio da caridade e humildade, conseguimos mostrar aos outros que a vida virtuosa é boa e é a que deve ser vivida. Associada a um bom humor, somos capazes de dizer ao mundo que é possível ser feliz apesar das dificuldades do dia a dia. Devemos seguir o testemunho de São Francisco que primeiro levava Cristo às pessoas pelo exemplo e, depois, por palavras.


Devemos, por meio do estilo de vida, mostrar aos outros como se faz da melhor forma um ofício e mostrar que nós católicos também sabemos fazer bem o trabalho. É necessário dizermos isso porque não é raro ver fiéis católicos que somente pensam em ir à Missa, em pregar em grupos jovens e de oração, rezar novenas e terços, mas não se esforçarem no que é próprio do seu estado de vida. A vida espiritual tem sua suma importância e deve ser o centro da vida cristã, porém deve estar interligada com os outros aspectos da vida. Deve-se priorizar ter, antes de tudo, uma vida ordenada, com tempo para rezar, cuidar da família, trabalhar, ajudar os outros e se divertir.


Claro que há dificuldades em colocar tudo isso em prática, mas aos poucos, com a graça de Deus, é possível fazermos isso. Podemos ter um grande intercessor para o nosso trabalho que é São José. Em Nazaré, José trabalhava na carpintaria com empenho e simplicidade. Ensinou seu filho Jesus, o qual era conhecido como o filho do carpinteiro[4], como realizar bem o seu trabalho.


A partir disso, conseguimos perceber mais um fato: o próprio Deus encarnado trabalhou. Jesus fazia tudo da melhor forma e com boa vontade. Apesar de ter sido tentado, por ser homem, vencia esses impulsos e trabalhava fielmente na carpintaria em Nazaré. Aprendeu técnicas e as aplicou para que seus clientes ficassem satisfeitos. Fazia tudo com amor. Escondido, Ele já realizava sua obra de Salvação. Com isso, vemos que a imitação de Cristo pode ser realizada não somente na perspectiva espiritual, mas também no lado humano.


Se o próprio Deus fez aqui na terra um serviço da melhor forma possível, porque nós cristãos não fazemos igual para nos assemelharmos a Ele? Porque nós consideramos o trabalho somente como uma forma de punição de Deus e não como uma forma de buscá-Lo? O trabalho sempre foi desejado por Ele e não há razões para ser considerado como um castigo. É necessário, em todos os momentos, darmos o melhor para o Senhor.


“Não compreendo que te digas cristão e tenhas essa vida de preguiçoso inútil. – Será que esqueces a vida de trabalho de Cristo?”[5]


São José, padroeiro dos trabalhadores, rogai por nós!



[1] Gn 2,15

[2] Caminho, 359

[3] Gn 1, 31

[4]Mt 13, 55

[5]Caminho, 356


Autor:


Gabriel Dias

(Arquidiocese de Brasília)

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