Santo Agostinho: filósofo, defensor da fé e místico

Abordaremos o clássico tema da conversão de Santo Agostinho, que atravessa séculos e continua ainda hoje atual. Queremos voltar o nosso olhar para Santo Agostinho enquanto filósofo, defensor da fé e místico[1].



Ao adentrarmos sua história devemos ter em consideração o contexto atual, onde a máxima vigente é aquela que diz que não se deve buscar uma verdade, e que nem se pode alcançá-la. O Cardeal Joseph Ratzinger afirmava veemente que vivemos em uma “ditadura do relativismo” em que nada é reconhecido como definitivo e tudo “deixa como última medida apenas o próprio eu e as suas vontades”[2] —, todavia, em oposição a isso, existe no homem um desejo natural pela verdade. Conhecer a realidade como de fato é, de modo universal e unitário, é o desejo mais profundo do coração do homem, mesmo que não tenhamos consciência desse desejo. No entanto, algumas ideologias, como o cientificismo e o relativismo, deturpam e modificam esse desejo e faz com que desejemos conhecer apenas parte da realidade, muitas vezes uma realidade somente material ou utilitária.


A vida de Santo Agostinho é um grito ao homem moderno para que desperte do sono ideológico que vive e retome a busca pela verdade. Antes do ápice de sua conversão, empenhou grande parte de sua vida em busca da verdade. Lembremos de sua conversão filosófica ao ler Hortensius, um texto antigo de Cícero que exorta o leitor à sabedoria, que despertou-lhe um apetite que era muito presente nos antigos filósofos: o desejo e amor pela sabedoria, que é o ponto de partida de uma vida filosófica. Santo Agostinho buscou a verdade pela faculdade da inteligência própria de todo homem, aceitou que seu coração se inclinava a uma realidade que era maior que ele e por mais que tenha caído em um alguns erros, acreditando que a poderia encontrar-se com Deus somente pela razão, ele tinha uma vantagem que muitos hoje não tem, que é a busca de uma verdade.


Ele almejava e deseja a verdade como um bom filósofo, mas por mais que ele a buscasse não a encontrava. Seu coração ardia de desejo por ela, como o amado em busca da amada, todavia ela ainda parecia estar distante. Chegou certo momento em que percebeu que não poderia alcançá-la somente pela razão, era necessário algo mais. Para encontrá-la era necessário que primeiro Santo Agostinho tivesse um encontro com a fé. É de suma importância nós termos em mente que o Santo nunca deixou de crer em Deus, “tendo bebido o amor pelo nome do Senhor com o leite materno”[3]. Ele cria em um Deus pessoal[4], porém o que ele abandonou no seu caminho foi a fé na Igreja Católica e a falta de orientação da Igreja dificultou esse encontro. Como poderia ele buscar apenas uma parte do corpo, a cabeça, ignorando, negando ou desprezando o corpo. Aquela afirmação dita por muitos: “Sim a Deus, e não a Igreja” é um engano. Deus deixou-nos a Igreja como o sinal vivo e visível do seu Filho aqui na terra. A Igreja, além disso, é Mãe e Mestra, como uma Mãe conhece aquilo que pode ferir o filho e como Mestra conduz, como um bom professor, o aluno ao conhecimento.


Para que o Santo se encontrasse com a Verdade – “Eu sou o caminho a verdade e a vida”[5] -, foi necessário que voltasse ao ventre da Igreja para renascer como um novo homem e ser capaz de olhar para o mundo[6] e perceber que a verdade que tanto procurava estava dentro de si, no seu espírito, “sabe-se que essa conversão teve um caminho muito particular, porque não foi uma conquista da fé católica, mas uma reconquista. Ele a perdeu , perdendo-a, ele não abandonou a Cristo, mas apenas a Igreja.”[7]. Sem a intermediação da Igreja ele não poderia encontrar-se com o Cristo. “Ele entendeu que a fé, com certeza, requer uma autoridade divina, que essa autoridade não é maior do que a de Cristo, Supremo Mestre - de que Agostinho nunca duvidou - e que a autoridade de Cristo se encontra nas Sagradas Escrituras, garantidas pela autoridade da Igreja Católica.”[8]. Quantos hoje não se encontram nesse limiar de encontro com o Cristo. O coração grita para encontrar-se com Ele, porém há algo que impede. Um dos motivos que impedia Agostinho de encontrar-se com tal verdade é uma das razões que talvez não permitam que muitos hoje não tenham esse encontro. Reafirma-se o que foi dito acima, a Igreja não é a vilã da história, mas Mãe e Mestra e não se pode ter um encontro verdadeiro com Cristo aquele que não se submete primeiro ao Seu corpo, que é a Igreja.


“Transforma-se o amante na coisa amada; por virtude do muito imaginar; não tenho mais o que desejar; pois em mim já tenho a parte desejada.” Esse trecho do poema de Camões expressa o segundo período ápice da conversão de Santo Agostinho. Com o auxílio da Igreja, representada por Santo Ambrósio, ele percebeu que a verdade que tanto procurava estava dentro dele: “O Senhor está mais próximo de nós, do que nós de nós mesmos — «interior intimo meo et superior summo meo» (Confissões, III, 6, 11)[9].


Uma das características singulares do ser humano é a interioridade, a capacidade de reflexão[10], porém tomados pelo ritmo frenético do cotidiano, muitas vezes, deixamos essa capacidade de lado e somos conduzidos somente pelas coisas exteriores. A rotina pesada, a falta de admiração do mundo e a incapacidade de silenciar impedem o homem de perceber quem ele é. A consequência de não nos conhecermos é não conhecer Aquela que inabita em nós, a Trindade Beatíssima: “Se alguém me ama guardará minha palavra; meu Pai o amará, e nós viremos e faremos nele nossa morada”[11]. Santo Agostinho, como mestre da interioridade, é um exemplo para que nós possamos retomar a interioridade que é própria da natureza do homem: “Eis que habitava dentro de mim e eu te procurava do lado de fora.”[12]. A parte desejada estava dentro dele, e era necessário coragem para deixar os estímulos que vinham de fora e olhar para dentro.


E o que devo desejar a mais se “em mim já tenho a parte desejada”? Santo Agostinho como ascético e místico percebe que o caminho para desejar somente o amado é cotidiano. “Nós temos sempre necessidade de ser lavados por Cristo, que nos lava os pés, e por Ele renovados. Temos necessidade de uma conversão permanente” [13]. Esse é o comentário de Bento XVI sobre o momento em que o Santo percebe que era necessário todos os dias da vida dele pedir perdão a Deus e que a perfeição, pedida por Cristo, é gradual e somente “Cristo realiza verdadeira e completamente o Sermão da montanha.”[14]


A santidade é Deus que realiza. Não se pode alcançar a santidade pelas próprias forças, o santo padre vem nos alertando do perigo de um neopelagianismo e temos que ter consciência de que necessitamos da ação da graça para conhecer e estar com Deus. Santo Agostinho para os tempos modernos é um farol que ilumina a escuridão em que muitos se encontram. Sua vida tem encontros significativos onde nós podemos ter exemplos do uso correto da racionalidade, aprofundamento da fé e testemunho de perseverança. Tudo isso porque ao encontrar a verdade que estava dentro dele iniciou um caminho em que o amante aos poucos torna-se o amado: “Já não sou eu que vivo, é Cristo que vive em mim”[15].


[1] Para um aprofundamento maior sobre assunto recomenda-se a obra: L’attualità di Agostino de Remo Piccolomini e Natalino Monopoli.

[2] Cardeal Joseph Ratzinger, Homilia “pro eligendo romano pontifice”, 18 de abril de 2005.

[3] Confissões, III, 4, 8

[4] Papa João Paulo II, Carta apostólica Augustinum Hipponensem.

[5] Jo 14,6

[6] O seu “eu” e a realidade.

[7] Papa João Paulo II, Carta apostólica Augustinum Hipponensem.

[8] Ibidem.

[9] Papa Bento XVI, Angelus III Domingo de Advento "Gaudete", 11 de Dezembro de 2011.

[10] Lucas, R.L. El hombre, espíritu encarnado: compendio de antropologia filosófica. Salamanca, Ediciones Sígueme, 2013

[11] Jo 14,23

[12] Confissões, X, 27, 38

[13] Papa Bento XVI, Audiência geral: Santo Agostinho de Hipona (5), 27 de Fevereiro de 2008

[14] Ibidem.

[15] Gl 2, 20


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Pastores Dabo Vobis
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