Santo Tomás de Aquino e a busca da Verdade

O século XIII é um período de profundas e inovadoras transformações culturais e sociais. Este cenário é marcado por diversos acontecimentos: a construção das catedrais, as cruzadas, o despontar das ordens mendicantes (em particular, os Frades Menores – conhecidos por Franciscanos –, e os Padres Pregadores, chamados de Dominicanos), os conflitos entre o papado e o poder do Estado, etc.



Existem outros fatores fundamentais que traçam os roteiros deste século, são eles: primeiro, o solo institucional, isto é, o nascimento das universidades medievais (Paris, Bolonha e Oxford); segundo, o solo teórico, ou seja, com o depauperamento da filosofia platônica, as obras de pensadores do mundo árabe (Avicena e Averróis) e, finalmente, as obras do Estagirita se tornam conhecidas pelos pensadores latinos. Assim, pode-se dizer que houve a interpenetração de duas tradições: a cultura cristã com a cultura dita pagã, em outras palavras, o encontro do saber teológico com o saber filosófico.


Destarte, a cultura expandiu-se por toda a Europa, vindo o renascimento da influência helênica e das grandes sínteses filosóficas. Uma imensidade de pensadores medievais poderia ser mencionada, tais como São Boaventura, Santo Alberto Magno, Santo Anselmo de Cantuária, Guilherme de Ockham ou Duns Scoto. Entretanto, nenhum deles se assemelha àquele que, vivendo dentro deste contexto de profunda crise, é considerado o Príncipe dos Escolásticos, e tem sua obra como o cimo e o ponto de referência, a qual unifica e ordena a paisagem rica e complexa do século XIII: Santo Tomás de Aquino.


Santo Tomás de Aquino, também chamado Doctor Angelicus, foi capaz de construir uma imorredoura, primorosa e magistral síntese que representou uma verdadeira revolução e que surpreende a todos por sua atualidade, em pleno século XXI. Dessa forma, percebe-se que, apesar de ser um intelectual medieval, seu pensamento sui generis não está situado, unicamente, no contexto de uma época; mas, ao contrário, transcendeu os limites da Idade Média, porque permite desdobramentos, pois não se trata de um sistema engessado.


Um de seus devotados biógrafos, Guilherme de Tocco, caracterizou o magistério do Doutor Angélico em Paris com a nota de novidade. Contudo, esta não deve ser entendida como uma rejeição ao passado.Inúmeros autores, obstinadamente, afirmam que Santo Tomás trouxe e realizou uma síntese que tem a marca de grande novidade e/ou inovação: ao criar algo novo não abandonou as contribuições que seus predecessores haviam feito, isto é, voltou-se para o passado, construindo, assim, sua admirável ‘catedral’ (comparada por conta de sua esplêndida e deslumbrante majestade) e solidificou-a, particularmente, com as pedras do pagão Aristóteles.


Sua atualização foi ousada, não apenas inovou, assimilando o pensamento de seus predecessores, mas também aperfeiçoou a visão que seus antepassados tinham e rejeitou os seus erros, seja num Aristóteles ou até mesmo num Agostinho. Assim, sua inovação não é de substituição, mas de aprimoramento, esclarecimento e complementariedade.


Sendo seu pensamento de uma luminosidade incomparável, deve-se acrescentar que o sistema tomista não possui a resposta para todos os problemas modernos, mas, de fato, seus ensinamentos chegam aos nossos dias com toda a sua vitalidade e pujança, constituindo-se um contributo para repensar ou reexaminar os problemas e embates contemporâneos.


Por conseguinte, muito se tem debatido a respeito da atualidade da obra de Tomás de Aquino, pois esta tem ajudado no desenvolvimento de pesquisas dentro das mais variadas correntes da filosofia contemporânea, como a lógica, a educação, a filosofia da linguagem, a ética, a filosofia do direito, a bioética, dentre outras. À vista disso, voltarmos ao Aquinatense vai além de uma simples referência histórica, pois, estamos lidando, como afirma Jacques Maritain, com um tomismo vivo e não um tomismo meramente arqueológico.


A atualidade de Santo Tomás de Aquino não se encontra nos manuais que reúnem seus textos, passagens ou ideias de suas obras, numa compilação mecânica, muito menos em seus seguidores, que lhe repetem as palavras. Porém, sua novidade reside no fato de que, mesmo morto, se devidamente interpelado, é capaz de falar aos pósteros, uma vez que seu passado se converte em presente.


Reiteramos que voltar a Santo Tomás não tem como empreendimento a aplicação do passado. Mas, ao contrário, o que se pretende é a recuperação de sua atitude intelectual perante o mundo e o tempo.Nesse sentido, um retorno a Santo Tomás poderá nos conduzir a quatro pontos fundamentais, além de fazer com que cada pensador, de nossa época e da vindoura, realize uma síntese original, tal como fez o Aquinate.


Em primeiríssimo lugar, Santo Tomás teve a capacidade de assumir a sua época, isto é, não abandonou o passado, mas assumiu-o numa perspectiva do presente, em outras palavras, encarnou o movimento cultural (traduções das obras helênicas e árabes, com a revelação da doutrina de Aristóteles)que atingiu, no século XIII, a sua plenitude. Por isso que, sem tirar os pés da terra e envolvido num clima de uma ampla atividade intelectual – mergulhado nas disputas universitárias –, o interesse deste homem medieval não era a discussão pela discussão, mas a procura honesta da Verdade.


Por esse motivo, deve-se acrescentar que Santo Tomás não era um aristotélico puro, mas um gênio com a capacidade de elaborar uma nova síntese. Ele foi além tanto do irenismo fácil – ou seja, duma atitude conciliadora que visa apaziguar ânimos ou pôr fim a querelas –, quanto de um servilismo, isto é, uma conduta de quem não é livre e aceita tudo passivamente, sem tecer nenhuma crítica.


Em segundo lugar, o Aquinate viveu em seu tempo uma gama de enormes transformações e de grandes polêmicas, e ele, como ninguém, teve a intuição ou o lampejo de discernir o que não falava mais aos seus contemporâneos (o ultrapassado, por mais tradicional e venerável que fosse). Ele teve a coragem de optar por aquele pensamento e aquela linguagem filosófica que melhor expressasse a Verdade.


Em terceiro lugar, o Aquinatense tinha a percepção das coisas essenciais, não se perdendo em nugas, isto é, em divagações. Ao contrário, ele ia à raiz dos impasses de seu tempoe que até hoje são os dilemas do homem moderno: problema do homem e da sua liberdade, o diálogo entre a fé e da razão, a objetividade ou não de nossos conhecimentos, a ética, a moral, dentre outros.


Finalmente, em quarto lugar, vê-se a extraordinária flexibilidade de um pensamento que é capaz de permitir mil prolongamentos, ou seja, o pensamento tomasiano não é fechado, muito menos intolerante, mas sempre aberto ao diálogo e à crítica. Para tanto, como se viu neste trabalho, surgiram os mais diversos tipos de tomismos (tomismo heideggeriano, tomismo kantiano, tomismo analítico, tomismo linguístico, tomismo lógico etc.).


Dessa forma, o pensamento tomista possui duas características singulares: a abertura e o universalismo, ou seja, ao desenvolver seu pensamento, o Aquinate explora também o pensamento de filósofos pagãos, visto que o seu compromisso não era com este ou com aquele pensador, mas com a busca pela Verdade, onde quer que ela estivesse.


Certamente, Santo Tomás de Aquino, se vivo fosse, não recuaria diante os novos temas, nem hesitaria ante as quaestiones disputatae por seus alunos. Seu procedimento, sem dúvida, evitaria toda e qualquer superficialidade e, provavelmente, longe de se apresentar com assiduidade na mídia ou em programas de entrevistas, estudaria a fundo cada interlocutor, analisando toda espécie de assunto. Evidenciaria todos os aspectos apreciáveis da questão a ser analisada – pelo conteúdo de verdade aí presente –, esforçando-se por discernir de forma crítica aquilo que poderia ser complementado, integrativo, harmonizável ou até mesmo inconciliável e/ou divergente de seu pensamento.


Por último, possa este trabalho levar muitos a redescobrir o valor da obra e perenidade do pensamento de Santo Tomás de Aquino. Não um estereotipado Santo Tomás, mas o autêntico (genuíno) do qual notáveis intelectuais foram influenciados: Jacques Maritain, Étienne Gilson e Battista Mondin, e osbrasileiros Urbano Zilles e Henrique Cláudio de Lima Vaz. Uma plêiade de pensadores poderiam ser ainda acrescentados ou mencionados, mas o que todos estes e outros têm em comum é que abeberaram-se da ‘catedral Aquinatense’.


Por isso, Santo Tomás de Aquino pode ser chamado de ‘Apóstolo da Verdade’, seu amor a Deus e aos homens expressou-se em sua paixão pela Verdade: por isso, renunciou a tudo na vida, não se importando com as titulações do mundo, amando e consagrando-se, de forma incondicional e sem reservas, acima de tudo, à Verdade e à sua transmissão.


Portanto, como utopia, esperamos que a filosofia e a voz tomista ressoem pelos rincões do nosso país, pois vê-se em Santo Tomás um mestre que, mesmo possuindo inúmeros dotes e uma extraordinária inteligência, com humildade pode ensinar aqueles que quiserem enveredar pelo caminho à procura da Verdade, e encontrando-a se esforcem por buscá-la sempre mais.


Autor:


Pastores Dabo Vobis
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