Stabat Mater, a Virgem no Calvário



Para aqueles que se aproximam do mistério da Paixão do Senhor, fica evidente a postura de compaixão e de amor da Virgem Maria. A Igreja celebra hoje, a memória obrigatória de Nossa Senhora das dores e nos convida a contemplar o sofrimento de tão boa Mãe ao se deparar com o seu Filho humilhado, abatido e ferido. Em alguns lugares encontramos a devoção, principalmente durante a Semana Santa, às sete dores de Maria. Nossa Senhora das dores que nos ensina a bem viver o tempo da paixão. Porém, existe um poema cristão antiguíssimo, infelizmente desconhecido por muitos católicos, chamado Stabat Mater, proposto pela Igreja como sequência litúrgica no dia 15 de setembro.


O texto do hino Stabat Mater é de origem controversa, sabe-se que surgiu no ambiente da espiritualidade franciscana do séc. XII, sendo comumente atribuído ao monge italiano Jacopone da Todi (c 1230-1306)[1]. Porém, existem aqueles que apontam para outras referências como ao Papa Inocêncio II, a São Boaventura e São Bernarndo de Claraval. Inicialmente, foi usado como piedade popular, depois integrado na liturgia oficial da Igreja como Sequência e posteriormente removido do Concílio de Trento. O Papa Bento XIII introduziu novamente no missal, em 1727.


De modo geral, o Stabat Mater apresenta o sofrimento de Maria junto a Cruz, segundo a qual “e ti, uma espada traspassará tua alma! Para que se revelem os pensamentos íntimos de muitos corações” (Lc 2, 35). E ao mesmo tempo, na segunda parte, realiza um pedido de súplica para que Cristo nos ensine a sofrer na escola de Maria. Ela que é a criatura com excelência no amor ao seu Filho e a vida na graça. Ninguém jamais amou Nosso Senhor Jesus Cristo como à Virgem Maria.


A piedade e profundidade das palavras desse santo poema são capazes de nos transportar para a experiência do Calvário. E se apresenta como um caminho de santificação para nós, que temos ainda dificuldade de entender na prática os malefícios e entraves do pecado, obstáculo à nossa salvação.


Atualmente, não é raro que nos comovamos com sofrimentos e questões humanas com especial sensibilidade em casos de injustiças, guerras e desastres. Atitudes importantes e louváveis. Entretanto, não sofremos diante da notícia de que o pecado ofende a Deus. É imprescindível no amor a Deus, a experiência da dor ou contrição por ter pecado. No calvário, vemos de forma prática e real expressa na carne maltratada de Jesus Cristo os males e entraves do pecado. Deus se fez homem para sofrer por nós, para amar.


Somos introduzidos todos os anos no mistério da Paixão e não nos comovemos, era preciso que alguém da humanidade, com o coração sensibilíssimo, fosse referência de compaixão e de piedade diante de tal grande Mistério. O Stabat Mater relata o sofrimento humano da Virgem Maria e também o seu sofrimento sobrenatural. Ela ama o seu Filho acima de todas as coisas.


A Igreja medita a Paixão com a Virgem Maria, na expectativa de, pelo seu exemplo, receber a graça de amar o Senhor da forma como Ele quer ser amado: com a cruz, com sofrimento.


O texto do Stabat Mater nos transporta para um cenário dramático e profundo, com tal carga sentimental e existencial, foi musicado por compositores clássicos da história da Música, tais como Vivaldi, Domenico Scarlatti, Franz Schubert, Rossini e até por compositores contemporâneos como Mons. Marco Frisina. Esses célebres compositores buscaram revelar claramente a fé e a devoção cristã, uma fé simples e despretensiosa, que dá origem a composições de profunda contemplação. Além disso, esse poema clássico da tradição cristã também foi adaptado para o canto gregoriano.


Do ponto de vista musical, o Stabat Mater foi uma das peças que foram reféns de um grande conflito da história da música sacra: ser esteticamente fiel ao texto ou colocar a estética acima do texto. O limite entre as peças elaboradas com tamanha complexidade musical, nas quais os aspectos musicais eram colocados em evidência em detrimento do próprio texto, não era claro. Ao mesmo tempo, em que a busca pela simplicidade para realçar o texto, torna certas obras musicalmente pobres e modestas.


Entretanto, uma composição do Stabat Mater que consegue estabelecer um certo equilíbrio entre esses extremos é a do célebre Giovanni Battista Pergolesi. Este compositor se apropriou de tal forma da mensagem do texto, que terminou de redigir a melodia desse poema no seu leito de morte, como sua última forma de expressão musical[2]. A peça foi escrita para dois cantores, duas mulheres (Soprano e Alto), sem a presença de coro, para exprimir o caráter intimista e devocional do poema[3]. Porém, não se trata de uma peça operística na sua origem, mas de uma tentativa de exprimir mediante o “chiaroscuro”[4] dos cantores, a melhor sonoridade para representar a dor da Virgem Maria ao ver seu Filho humilhado e concomitantemente a esperança de poder sofrer com Ele, afim de seguir para a vida eterna.


A escolha do poema, em sua origem, ser em latim não é em vão. Como afirma Paulo Moura,

O segredo da força que Mater Dolorosa encerra reside na intensidade do sentimento com o qual o poeta se identifica a si próprio, bem como na suave e lamuriosa melodia do seu ritmo e rima latino, e que, por isso, não podem ser traduzidos para nenhuma outra língua (PAULO, RUI. p.44)

Portanto, percebemos que a estrutura do poema, bem como os pequenos detalhes, estão em conformidade com a mensagem do texto.


Por fim, o centro do Stabat Mater é um pedido piedoso e humilde ao Senhor, a exemplo de Maria: a graça de sofrer por Ele. Que sejamos dignos de receber os méritos da Paixão, nos voltemos para o Crucificado. Hoje você é convidado a rezar com esse belo texto, e meditar as dores da Virgem Maria. É importante ressaltar que Ela estava de pé, não contorcida ou acabrunhada. Pedimos a graça de sermos como o discípulo amado, que reclinou a cabeça no peito de Cristo, a oportunidade de estar aos pés da cruz enquanto todos estavam correndo. Que à Virgem das dores nos ensine a mergulhar no grande mistério da Paixão do Senhor.


Segue abaixo alguns links para contemplarmos esse poema na linguagem musical gregoriana e clássica, juntamente com o arquivo em anexo contendo a letra e tradução do mesmo:

Gregoriano: https://www.youtube.com/watch?v=5LCAdXR8GU8

Pergolesi:

- Versão mais próxima do original: https://www.youtube.com/watch?v=S-FKk_J91LU&feature=youtu.be

- Versões com interpretação contemporânea: https://www.youtube.com/watch?v=qzOmPUu-F_M&feature=youtu.be

https://www.youtube.com/watch?v=xHQVtYzjLao

Stabat_Mater_-_Letra_e_Tradução
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[1] Cf. Dvorák Stabat Mater, Coro Casa da Música; Coro da ESMAE ;Coro Infantil Casa da Música. P.8 [2] Pergolesi. Stabat mater for Sopran and Alto. Klavierauszug/ Piano Vocal Score von/ by Michael Obstt. Breitkopf & Hartel, 2005.p.3 [3] Idem. [4] Chiaroscuro (Italian for "light-dark") is part of bel canto, an originally Italian classical singing technique in which a brilliant sound referred to as squillo is coupled with a dark timbre called scuro. The overall sound is often perceived as having great depth or warmth. Chiaroscuro is commonly used in opera. Within operatic singing, especially in Italian, the vowel "Ah" provides an example of where chiaroscuro can be used: the vowel must have a bright Italian sound, as well as depth and space in the tone, which is achieved through the use of breath and the body. Cf. Acessado em: < https://en.wikipedia.org/wiki/Chiaroscuro_(music)> . 11/09/2020. O Chiaroscuro em outras palavras, é um termo da técnica vocal italiana, que trata de um equilíbrio harmônico alcançado por cantores experimentes, no qual a voz não é nem muito escura e nem muito clara, brilhante. Mas, está em seu estado perfeito, no melhor som que um determinado voz pode emitir.


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Pastores Dabo Vobis
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