Tempus Sacrum: uma reflexão filosófico-teológica sobre a ideia de tempo

Em dias de insegurança, é nosso desejo ajudar aqueles que se aventuram no estudo da teologia litúrgica a chegarem no porto seguro do conhecimento e da fé. O caminho, embora árduo, deve ser enfrentado com coragem e determinação. Como um pequeno instrumento de auxílio. Este texto tornará mais próximas e acessíveis as realidades do tempo e da liturgia católica.



Existem vários ditos populares que tocam a ideia de tempo, nenhum deles, porém, alcança a sua essência ou diz de fato o que ele é. Falamos sobre o tempo, mas não conseguimos acertar sobre a sua relevância para o ordenamento das coisas criadas, e o seu papel fundamental no funcionamento do modus vivendi do ser humano. Algumas expressões procuram entendê-lo, mas se quebram na complexidade de sua filosofia, explicando-o apenas como um fenômeno sentido no ordinário da vida. No entanto, algumas expressões correntes são um bom começo para a nossa reflexão: “este é um mau tempo”, “são maus os tempos em que vivemos”, “como o tempo passou rápido!”.


Ao usar o verbo “passar”, a frase apresenta o nosso mundo sensível como uma teia onde os eventos são tecidos a partir de espaços temporais, e sentidos num movimento contínuo das grandezas físicas primárias, ou seja, o tempo é movimento do ser material antes de qualquer coisa. Aristóteles já nos ensinava que o movimento é o ato do ente em potência enquanto tal: “he tou dynámei óntos entelécheia he toíouton kínesis estín”[1]. O tempo é o número ou a medida do movimento e do repouso, segundo o antes e o depois do próprio movimento: “touto gàr estì o chrónos arithmòs kinéseos katà tò próteron kaì usteron”[2]. Dessa forma, afirmamos que o tempo constitui uma dimensão cósmica pela qual se mede as coisas mutáveis, ou a sucessão de fases pelo qual procede o devir da natureza. “É a sucessão das partes anteriores e posteriores; ou também, mais brevemente, é o próprio movimento enquanto numerado e medido”[3].


Já em relação ao entendimento da Igreja sobre “Tempo Litúrgico”, e de como Deus se manifesta nele para a salvação e redenção do gênero humano, devemos recobrar o seguinte: tempo litúrgico é toda passagem, ou, a sucessão entre passado, presente e futuro, sacralizada pela chegada do Filho de Deus.


Da origem do mundo, percorrendo os longos séculos que sucedem a narração do Gênesis, até a morte dos apóstolos, Deus se releva e procura fazer aliança com o homem. Esta revelação ocorre dentro de um tempo, primeiro através dos profetas, e depois por meio do Verbo encarnado[4]. A primeira aliança é quebrada pelo homem através da sua queda no pecado, mas a segunda é eterna e firmada sobre o próprio Cristo Jesus, e estabelece um compromisso entre Deus nas alturas e o ser humano na terra[5]. O mistério da Divindade que vive fora das categorias comuns e acessíveis ao conhecimento humano se torna mais claro pelo movimento da encarnação. Assumindo a humanidade, Deus eleva o homem até um patamar que antes era inacessível a ele por suas forças e, através da fé, o convida a dar passos no seguimento do seu amor. Jesus Cristo se torna o rosto do Pai, e revela aos homens a sua filiação divina[6].


Assim, esse entendimento sobre o tempo na Liturgia é equivalente à ideia de que “na sua encarnação e adoção da existência humana, a Palavra eterna adotou também a temporalidade, atraindo o tempo para o espaço da eternidade”[7]. Podemos, então, afirmar que todo o tempo, é tempo de Deus. É sagrado por que o Eterno se faz presente nele. O tempo litúrgico é, portanto, o tempo da salvação. A época escolhida por Deus para colocar em prática o seu projeto de remissão e perdão. Enquanto o Verbo édesde toda a eternidade, a pessoa de Cristo – o filho do Deus vivo – começa a existir no tempo, e assume o seu é no seio da Virgem Maria.


No Logos acontece algo inédito no que diz respeito ao tempo: a eternidade divina e o fluir temporal coabitam juntos, da mesma forma que suas naturezas. Concordar que a eternidade da vida de Deus em Jesus Cristo contradiz ou nega a sua dimensão temporal não é correto. No Encarnado esta coexistência se dá mediante a dominação da eternidade sobre a temporalidade, que se realiza na imanência de Jesus. Uma vez que o Verbo “retorna” ao seio da Trindade e insere a humanidade na dinâmica da vida trinitária, essa forma de existir sempre será concreta e corporal na Segunda Pessoa[8].


Assumindo que o tempo é uma sucessão de instantes engrenados no devir da natureza, e a sua relação com a perenidade em Deus mediante a encarnação, recordamos que o maior evento histórico já ocorrido nesse mundo e sujeito às leis naturais foi a vinda do Verbo de Deus. A irrupção do Eterno no tempo dá início a uma série de ações que visam o resgate da humanidade do pecado original. São essas ações que nós atualizamos mediante os sacramentos, e que constitui a obra santificadora de Jesus no mundo. Também podemos chamar essas ações de liturgia.


A liturgia da Igreja, portanto, recobra esse momento único da história universal. A partir da chegada do Verbo, todo o decurso do tempo é definido pelos eventos salvíficos. Assim, os dias da semana passam a fazer referência à Vida do Senhor, sendo que muitas festas regionais e nacionais, começam a haurir sentido em algum princípio cristológico, ou são criados para honrar um personagem que se santificou através da sua fidelidade à mensagem cristã. Por fim, na tentativa de sistematizar todo o mistério e facilitar a vivência do povo, o tempo litúrgico passa a ser memorado no decurso do ano litúrgico, no qual temos a oportunidade de relembrar o mistério pascal, fonte de onde emana toda atividade eclesial. Desse modo, podemos afirmar que o mistério da liturgia é o mistério de Cristo, e culto perfeitíssimo a Deus.


Do ciclo litúrgico que se desenvolve ao longo do ano, o tempo pascal é o mais significativo por causa das ocasiões celebrativas que dão uma ênfase toda especial à ressurreição. Nesse sentido, morte, ressurreição e ascensão do Senhor, também a vinda do Espírito vivificador, complementam o mesmo mistério[9]. À vista disso, afirma Augé que “o tempo da páscoa é o período no qual partindo do tríduo pascal, como sua fonte e luz, até a solenidade de pentecostes, celebra-se como uma única comemoração”[10]. Entendemos, portanto, que celebramos todo o período pascal como se fosse uma única e mesma festa.


Este decurso celebrativo vivido anualmente pela Igreja não se restringe aos cinquenta dias mencionados acima. Não podemos deixar de fazer referência à nossa páscoa semanal, o domingo, considerado como o dies dierum. O dia em que Cristo ressuscita dos mortos é também o dia que revela o sentido do tempo. Toda a essência da páscoa cristã é condensada nesse dia de importância capital para a vivência da fé. O domingo prefigura o dia final da parusia, já antecipado no momento da ressurreição de Cristo após sua morte[11].


Essa expectativa escatológica não deve nos impedir de viver o presente como o tempo da nossa salvação. Antes deve estimular em nós o desejo de uma união íntima e mais perfeita com o autor de toda a existência. É no ordinário do hoje que nos orientamos para Cristo Jesus, preenchendo o coração com a esperança da redenção final. Deste caminho, os cristãos possuem a chave mestra, uma vez que o domingo é para nós o instrumento de santificação e testemunho significativo mediante a participação ativa dos santos mistérios, de sorte que podemos chamá-lo de tempo absoluto, pois sendo o dia de Cristo, transpassa todos os eventos históricos como uma seta que aponta para a eternidade[12].


Toda essa obra é completada pela cooperação dos fiéis ao Espírito Santo. É o Espírito quem segue santificando o povo continuamente nos propósitos salvíficos do Pai, e que termina a obra redentora do Filho. Vale citar o texto do Ofício das Leituras do Domingo de Pentecostes: “todos aqueles que são guiados pelo Espírito de Deus, esses são filhos de Deus, não pelo esforço, pela ascese ou pela própria vontade de mudança, mas pela ação própria do Espírito que os guia”. De modo que o dia dos dias, ou o dia absoluto, também pode ser chamado por excelência de o dia do Espírito.


A liturgia, portanto, tem um lugar especial em nossa vida de fé e eclesiológica, encontrando a centralidade na Segunda Pessoa da Trindade, o mediador da criação, que é o princípio contínuo do bem, que salvaguarda o presente e o futuro em suas nuances mais complexas e misteriosas. Com essa certeza, não poderemos jamais perder a esperança, por que o Verbo se fez carne e habitou entre nós[13].


O apelo a uma vivência litúrgica viva e eficaz deve ressoar mais fortemente no nosso tempo, pois muito tem-se discutido sobre a vida histórica de Jesus e o modo como Deus salva dentro da própria história humana. A questão da encarnação é mais fortemente evidenciada, e o seu fruto que é a Igreja, demonstrável, quando a associamos com o mistério da liturgia e do tempo.



[1] ARISTÓTELES. Física, III, 1, 201 a 10-11 [2] ARISTÓTELES. Física, IV, 1, 219 a 11-14 [3] SELVAGGI, Filippo. Filosofia do mundo. São Paulo. Edições Loyola, 1988, p. 235 [4] Cf. Hb 4, 1-4 [5] Cf. Os 20, 21-22 [6] Cf. Jo 1, 1-3.11-14, 17 [7] RATZINGUER, Joseph. Introdução ao espírito da liturgia. São Paulo. 2ª Ed. Paulinas, 2001, p.69 [8] RATZINGUER, Joseph. Introdução ao espírito da liturgia. São Paulo. 2ª Ed. Paulinas, 2001, p.69 [9]Cf. A explicitação dessa mudança tão importante está na oração da collectada missa vespertina da vigília de pentecostes, que afirma que “o mistério pascal se completa durante os cinquenta dias, até a vinda do Espírito Santo” (MISSAL ROMANO, 1999, p. 317). Também o prefácio da missa de pentecostes diz: “Para levar à plenitude dos mistérios pascais, derramastes, hoje, o Espírito Santo prometido, em favor dos vossos filhos e filhas” (MISSAL ROMANO, 1999, p. 319). [10] AUGÉ, Matias. Quaresma, Páscoa, Pentecostes, Tempo de renovação. 1ª Ed. Ave Maria, 2005, p.74 [11] JOÃO PAULO II. Dies Domini. São Paulo. 1ª ed. Paulus, 2001, n.75 [12] JOÃO PAULO II. Dies Domini. São Paulo. 1ª ed. Paulus, 2001, n.76 [13] Cf. Jo 1, 14


Autor:


Roberto Braga

(Diocese de Uruaçu)

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