Um mosteiro, um Papa e a grande Reforma Gregoriana


Enquanto católicos, olhar para a história da Igreja deve ser sempre para nós ocasião de enxergar a ação da Providência Divina na caminhada de seu povo. É a mesma razão pela qual os israelitas tinham gosto por narrar a história da salvação: não se tratava apenas de contar fatos sucessivos, mas de honrar a Deus, descrevendo suas intervenções na longa caminhada do povo com o qual havia feito uma aliança. Também para nós, o novo povo de Deus[1], olhar para trás, na bela história de nossa mãe, a Igreja, deve ser sobretudo um levantar os olhos aos céus em gratidão ao Bom Deus. É com esse espírito que tentarei aqui retratar um importante episódio de nossa memória.


A ingerência do poder temporal no âmbito interno da Igreja – cesaropapismo[2] – no fim da Alta Idade Média e a consequente degradação moral de parcela considerável dos homens consagrados a Deus daquele período – clérigos e religiosos – fez com que o século X ficasse desonrado na historiografia medieval com o nome de Saeculum Obscurum[3].


A secularização dos bens da Igreja, já existente anteriormente, ganha características mais dramáticas quando os senhores feudais, príncipes e monarcas do Sacro Império Romano Germânico se veem no direito de promulgar um grande número de nomeações pessoais e políticas para os mais variados cargos eclesiásticos – inclusive o papado – no episódio que ficou conhecido como questão das investiduras leigas. Esse deplorável costume, infelizmente, não era uma novidade quando a história alcança o conturbado século X, mas chega a níveis alarmantes nesse período, uma vez que agora essas nomeações eram massivas e as consequências disso ultrapassavam o limite do suportável aos olhos dos católicos devotos e piedosos, especialmente de alguns monges de uma abadia escondida no Reino da França: a Abadia de Cluny.


Não poucas vezes no curso da história, a Igreja assistiu a solução para os tempos de trevas brotar de tesouros escondidos, de santos nunca esperados e de lugares desconhecidos. Como para cumprir a Sagrada Escritura, que tão frequentemente “exalta os humilhados”[4], esses elementos estão presentes não só nos livros bíblicos, mas também estão transbordando dos manuais de história da Igreja.


Assim, no ano de 909, um cansado, afortunado e devoto senhor feudal residente no vale da Borgonha, nas profundezas do Reino da França, fez a doação de sua vasta vila para a Igreja Católica, a fim de que ali fosse construído um monastério em honra a São Pedro e São Paulo, que ficaria conhecido para a posteridade do cristianismo como o mosteiro de Cluny. O nome desse nobre senhor era Guilherme de Aquitânia e sua exigência era muito clara e preciosa para os tempos que se viviam: esse deveria ser um mosteiro absolutamente autônomo em relação a qualquer autoridade que não fosse enviada diretamente de Roma[5].


O mosteiro de Cluny, que já gozava então nas suas cláusulas de doação desse precioso princípio de autonomia – que iria contra o espírito do sistema feudal, dominado em grande parte naquele momento por uma mentalidade política secular –, seria a expressão concreta do desejo de mudança pelos católicos que se mantinham fiéis. Cluny era de fato a “organização da vontade reformadora”[6] da Igreja Católica Apostólica Romana na Idade Média. É verdade que também Cluny experimentaria seus anos de decadência muito tempo depois, mas aqui nos concentramos em mostrar quão importante foi essa abadia nesse conturbado período histórico.


Não é difícil compreender o quanto os interesses políticos envolvidos nas nomeações eclesiásticas por parte das autoridades civis eram uma causa praticamente direta da corrupção do clero, assim como da laxidão e do desapego das regras monásticas vividas pelos monges naqueles tempos obscuros. Logo se percebe porque Cluny foi fundamental para a reforma que se concretizaria com o nome de Reforma Gregoriana.


Em Cluny foram resgatados, desde sua fundação, os mais nobres valores da regra de São Bento e a disciplina dos monges era novamente honrada, como já havia sido de modo mais generalizado nos mosteiros dos séculos precedentes. O silêncio, a vida de oração, a pobreza, a renúncia, a castidade e a obediência – como São Bento havia ensinado – eram ali vividos novamente com intensidade[7]. Pouco tempo depois, Cluny não era apenas um mosteiro, mas um motor espiritual para a criação de vários monastérios espalhados pela Europa, fundados no mesmo espírito: imitar as virtudes praticadas naqueles claustros nos confins da Borgonha.


A série de papas beneditinos que assumiriam o trono de São Pedro nos anos que se sucederiam era obviamente fruto daquela montanha de pedras fortificada e preenchida com homens ávidos por adorar ao Senhor em “espírito e verdade”[8]. Mas um desses homens chamados a suceder o príncipe dos apóstolos nesse período é especialmente lembrado na história e honrado nos altares: São Gregório VII.


O monge Hidelbrando, proveniente da abadia de Cluny, é certamente “um dos homens mais intrépidos que a história já conheceu”[9]. Ainda em meio ao funeral do Papa Alexandre II – já no século XI – escuta-se o povo gritar o nome desse monge para ocupar a cátedra de Pedro. Não demoraria muito para, em abril de 1073, os cardeais se reunirem e elegerem Hidelbrando como sumo pontífice, que a partir daquele momento seria aclamado como Papa Gregório VII, um dos maiores pontífices da história da Igreja[10].


A Reforma Gregoriana, ao contrário do que possa se pensar, não tem início e nem mesmo chega ao seu limiar no pontificado de Gregório VII. Todavia, é com esse Papa glorioso que a reforma alcança seu auge, e é sob sua tutela que a Igreja viverá boa parte daqueles anos que, segundo historiadores medievalistas, haveriam sido certamente alguns dos anos mais extraordinários da história eclesial[11].


Alguns anos antes, no mesmo século XI, a Igreja assistiu o Papa Leão IX lançar as bases para a importante reforma que se desenvolveria nos anos subsequentes, travando grande combate contra a simonia[12] e o nicolaísmo[13]. Não se pode dizer que Leão IX contemplou o êxito de seus esforços, mas certamente os frutos de sua luta foram colhidos pelos papas que o sucederam.


Em 1059, outro importante pontífice – Nicolau II – daria um passo fundamental em vias de facilitar o combate da Igreja contra seus problemas internos desse período da história. Totalmente consciente do problema profundo pelo qual a Igreja passava devido a intervenção completamente descabida do poder temporal, esse Papa promulga a Bula In Nomine Domini, definindo que, a partir daquela data, os Papas deveriam ser eleitos exclusivamente pelo colégio de cardeais reunidos para tal missão. Assim, o seu sucessor, Alexandre II, será o primeiro Papa da história eleito somente por cardeais, concretizando ao menos o início dessa histórica reforma.


Para que o leitor não fique perdido em meio aos detalhes históricos, é importante que fique claro que a Reforma Gregoriana foi, portanto, um movimento reformador que envolveu vários pontífices, e que tinha como causa combater em duas frentes:


  1. Alcançar novamente a independência da Igreja em relação às autoridades políticas, manifestando inclusive a superioridade do poder espiritual em relação ao temporal;

  2. Resgatar a disciplina moral dos clérigos e religiosos.


Quando Gregório VII assume de fato o trono de Pedro, alguns importantes passos já haviam sido dados, mas ele não fugiria da responsabilidade de tomar as decisões mais significativas para o andamento da reforma. Foi através de um documento promulgado em 1075, chamado Dictatus Papae, que aquele Papa oriundo de Cluny lançaria as 27 proposições que virariam o jogo para a Igreja. Dentro delas está fundamentada, sobretudo, a importante verdade de que o Papa é o chefe supremo do mundo em questões religiosas e todos lhe devem submissão nas questões relativas à religião, inclusive os príncipes, monarcas e imperadores. Além disso, o documento deixava claro que as nomeações no âmbito eclesial cabiam somente às autoridades religiosas.


O ponto alto dessa luta foi justamente o embate de Gregório VII com o imperador do Sacro Império Romano Germânico, Henrique IV, uma vez que esse controlava várias das nomeações eclesiásticas e não estava disposto a ceder. O imperador retirou seu apoio ao papado e tomou uma série de medidas insensatas contra a Igreja, causando a sua própria excomunhão, proclamada solenemente por Gregório VII. Este, não satisfeito por lhe conferir o anátema, dispensou a todos os cristãos do juramento de fidelidade que tivessem feito a este imperador[14].


Henrique IV não se deu por derrotado, tratando de agir para derrubar o novo imperador colocado em seu lugar pela nobreza germânica e proclamando um antipapa, a fim de destronar também Gregório VII. Para isso, convocou seu exército pessoal e marchou para Roma, a fim de depor o pontífice reinante, que precisou se exilar na cidade de Salerno.


Gregório VII morre no exílio, mas suas ideias reformadoras já estavam agora instaladas na mentalidade da hierarquia da Igreja e espalhadas por toda a Europa. Em suas preocupações eclesiais ad intra, além de retomar já boa parte do controle das nomeações, ele conseguiu restituir a dignidade do clero e dos mosteiros, que agora respiravam novamente a sacralidade desejada. Em âmbito externo, lançou os pilares para a construção de uma Cristandade unida, que ainda experimentaria todo seu vigor cultural e apostólico outra vez[15].


Assim, além de alcançar os intuitos previstos desde o início do movimento, a Reforma Gregoriana abre o caminho para o nascimento das ordens mendicantes – Franciscanos e Dominicanos – e para o surgimento das universidades nos séculos XII e XIII.


Essa é a história – contada brevemente – de como um mosteiro que nasce da generosidade de um fiel devoto, e um grande santo – que assumiu o pontificado por desígnio divino – foram capazes de restituir, com o auxílio de tantos outros homens de fé à Santa Mãe Igreja, os seus direitos básicos de ser vista como aquela verdadeira e única Igreja fundada por Cristo, de quem provém toda a sua autoridade espiritual.


Que a intercessão da Virgem Santíssima – Consolatrix Aflictorum – permita também a nós, homens do século XXI, alcançar a generosidade para com Deus e a coragem desses grandes homens, a fim de que possamos assumir em nossas vocações, cada uma dessas verdades fundamentais de nossa fé, amando sempre com toda a reverência nossa Santa Igreja – Mater et Magistra – e sendo fiéis aos desígnios de Deus, que é sempre o mesmo, ontem, hoje e sempre!


São Gregório VII, rogai por nós.


Autor:

[1] Título dado à obra de eclesiologia do então Pe. Joseph Ratzinger, publicada pela primeira vez em 1969. [2] Sistema de relações entre a Igreja e o Estado no qual o chefe de Estado se concedia autoridade para regular a doutrina, a disciplina e a organização da sociedade cristã, exercendo poderes tradicionalmente reservados à suprema autoridade religiosa. [3] Século Obscuro – Cf. Curso de História da Igreja Medieval – Pe. Paulo Ricardo de Azevedo – Aula 08: Cluny e a reforma da Igreja: https://padrepauloricardo.org/aulas/cluny-e-a-reforma-da-igreja [4] Cf. Lc 1, 42. [5] Cf. PIERRARD, Pierre. História da Igreja. Ed. Paulinas: São Paulo, 1982, p. 81. [6] DANIEL-ROPS, Henri. A Igreja dos tempos bárbaros. Ed. Quadrante: São Paulo, 1991, p. 591. [7] Cf. DANIEL-ROPS, Henri. A Igreja dos tempos bárbaros. Ed. Quadrante: São Paulo, 1991, p. 592. [8] Cf. Jo 4, 23. [9] SÁENZ, Padre Alfredo. História da Santa Igreja: da querela das investiduras aos esplendores tridentinos. Ed. CDB, 2020, p. 34. [10] Cf. PIERRARD, Pierre. História da Igreja. Ed. Paulinas: São Paulo, 1982, p. 84. [11] Cf. RILEY-SMITH, Jonathan. As Cruzadas: Uma História. Ed. Ecclesiae: Campinas, 2019, p. 67. [12] Comércio dos bens espirituais confiados a Igreja. [13] Termo usado para se referir a união conjugal entre clérigos e mulheres. [14] Cf. SÁENZ, Padre Alfredo. História da Santa Igreja: da querela das investiduras aos esplendores tridentinos. Ed. CDB, 2020, p. 37. [15] Cf. SÁENZ, Padre Alfredo. História da Santa Igreja: da querela das investiduras aos esplendores tridentinos. Ed. CDB, 2020, p. 41.