Vocação: o caminho para a santidade

“Deveis ser perfeitos como vosso Pai celeste é perfeito.”[1] Assim se encerra o quinto capítulo do Evangelho segundo São Mateus. Este versículo resume a experiência do ser cristão em sua plenitude e revela a primeira vocação de todo ser humano: a santidade! Essa afirmação se torna ainda mais patente e vigorosa quando pensamos que se trata de uma ordem do próprio Jesus, e que seu cumprimento leva indiscutivelmente à realização da essência humana.



Todos são chamados à santidade e, mesmo que ela se dê de uma forma bastante individual – no tempo e lugar onde se encontra cada um –, existem traços e valores que são comuns a todos os que estão neste caminho: “O caminho da perfeição passa pela cruz. Não existe santidade sem renúncia e sem combate espiritual.”[2] Ao contrário do que ensinam as mais diversas linhas de pensamento hodiernas, a plenitude da existência humana neste mundo está sim ligada ao sofrimento, pois “é preciso passar por muitas tribulações para entrar no Reino de Deus.”[3]


O diferencial está em falar do sofrimento na perspectiva cristã, que não se trata de um castigo de Deus ou simplesmente obra do acaso, antes, funciona como um “grande trampolim” que eleva a percepção para o essencial e facilita a santificação de todos. Assim, a alegria – aspecto fundamental da santidade – é enriquecida de sentido, quando ultrapassa a compreensão meramente materialista e se volta para a contemplação do Absoluto e único necessário.


A santidade é a mais perfeita expressão de Deus no meio dos homens; é uma centelha que existe em todos, mas que só se tornará uma chama viva e ardente naqueles que reconhecerem em Deus a única fonte de todo o bem. Fica claro que a santificação não é obra de um dia, mas de uma vida inteira de escuta e doação ao Senhor; é uma batalha constante, “até que alcancemos todos nós a unidade da Fé e do pleno conhecimento do Filho de Deus, o estado de Homem Perfeito, a medida da estatura da plenitude de Cristo.”[4]


Para bem viver a vocação à santidade, Deus concede a cada um a graça de uma vocação específica, um chamado a um modo de vida que oferecerá meios de concretizar o primeiro chamado. A vocação é, portanto, um lugar privilegiado do amor de Deus! Diferente da primeira, essa vocação específica é individual, por isso, nos diz o Papa Francisco: “Importante é que cada fiel entenda o seu próprio caminho e traga à luz o melhor de si mesmo, quanto Deus colocou nele de muito pessoal (1Cor 12, 7), e não se esgote procurando imitar algo que não foi pensado para ele.”[5] Isto é vocação: o melhor de si mesmo que se oferece ao serviço de Deus e da Igreja!


É cada vez mais comum que alguém se pergunte e busque compreender o propósito de Deus em sua vida. Essa inquietação resulta de uma ação muito clara do próprio Espírito Santo, que quer a felicidade de todos, segundo Seu desígnio de amor. O dia 1º de novembro, em que se celebra a Solenidade de Todos os Santos[6], é oportuno para refletir e se inspirar no que levou tantas pessoas a abrirem mão de suas más inclinações, de seus desejos egoístas, e até mesmo de bons propósitos humanos, para abraçar integralmente o plano divino da santidade, vivendo uma vocação específica que os conduziu a perfeição.


Todos os Santos souberam acolher o ensinamento tão valioso que foi uma vez escrito na Imitação de Cristo: “Imprima em sua alma esta breve, mas perfeitíssima máxima: ‘Deixe tudo e achará tudo.’” Eis o desafio ao qual todos são chamados.

“A vocação é o transbordar da nossa experiência de Deus; acontece quando não mais conseguimos guardar os dons de Deus somente em nós mesmos, então temos a necessidade de levar a todos a alegria que Deus nos concedeu”, assim me falou meu diretor espiritual, quando lhe falei pela primeira vez do meu desejo de ser padre. Em outra ocasião, quando vivenciava um encontro vocacional em minha diocese, fui ao encontro de um santo sacerdote, no qual sempre me inspirei muito, para lhe dizer que me sentia chamado por Deus ao sacerdócio. Ele me disse algo que nunca me esquecerei: “Primeiro seja um homem santo, um homem de Deus.”


Não existe vocação que não encontre na caridade sua máxima expressão, sua razão de ser. “A caridade é amor, e a santidade é uma manifestação sublime da capacidade de amar. É uma identificação com Cristo...”[7] De que valeria viver tão radicalmente o chamado de Deus se não para identificar-se com a pessoa de Cristo? Jesus deve ser recolocado no lugar de onde nunca deveria ter saído: o centro de tudo!


É evidente que por meio da santidade ter-se-á ouvidos e corações mais abertos e dispostos para acolher o que Deus quer de cada um. O discernimento vocacional deve sempre se pautar no desejo de desprendimento do mundo, das coisas e das pessoas, para viver um único e supremo “apego”, o apego às coisas do alto! O Senhor chama seus discípulos sal da terra e luz do mundo[8]: o sabor e a iluminação que o mundo realmente precisa não pode ser outra coisa senão a vida divina, a santidade, que foi manifestada no Homem-Deus, Jesus Cristo, que agora conta com sucessores fiéis, acima de tudo, aos seus mandamentos e à sua Igreja.


Percebe-se que existe um vínculo real entre a santidade e o discernimento vocacional: a santidade torna clara a visão de quem se sente chamado; ela é a resposta generosa de alguém que está disposto a fazer a vontade de Deus. Como é triste conversar com alguém que, já no fim da vida, depois de uma longa caminhada na Igreja, muitas vezes como um consagrado, não tem mais nos olhos o brilho da santidade e a “esperança-certeza”[9] da Recompensa vindoura.


Como seria mais eficaz o apostolado da Igreja se todos os seus filhos, principalmente os consagrados, dedicassem-se a uma coerência de vida, própria de quem sabe da grandeza da Eterna Comunhão dos Santos[10], possível a todos os homens e que, por graça de Deus, já se começa a experimentar nesta vida! Se o fim da vocação específica é a santidade, por que não empregar todos os esforços possíveis desde agora para alcançar tão sublime meta?


Segundo Adolphe Tanquerey, existem três razões principais que facilitam o caminho da santidade de um fiel: “1. O bem da própria alma; 2. A glória de Deus; 3. A edificação do próximo.”[11] Sem dúvidas: quem percorre esse caminho consegue discernir verdadeiramente sua vocação.


Diante do testemunho de tantos Santos que hoje se celebra na Igreja do mundo inteiro, apoiados nas palavras do Autor Sagrado, inspirem-se todos os que escolheram o Céu desde já: “Portanto, também nós, com tal nuvem de testemunhas ao nosso redor, rejeitando todo fardo e o pecado que nos envolve, corramos com perseverança para o certame que nos é proposto, com os olhos fixos naquele que é o iniciador e consumador da fé, Jesus[...]”.[12]


Todos os Santos e Santas de Deus, Rogai por nós!



[1] Mt 5, 48.

[2] CIC, 2015.

[3] At 14, 22.

[4] Ef 4, 13.

[5] Gaudete et Exsultate, nº 11.

[6] Cf. Missal Romano: “No Brasil, por determinação da CNBB e autorização da Santa Sé, esta solenidade é celebrada no domingo seguinte, caso o dia 1º não caia em domingo. Quando, porém, o dia 2 de novembro cai em domingo, celebra-se a solenidade de Todos os Santos no sábado, dia 1º de novembro”

[7] SARAH, Cardeal Robert e DIAT, Nicolas. Deus ou nada: Entrevista sobre a fé. 1º Edição. São Paulo: Editora Fons Sapientiae, 2016. Pág. 348.

[8] Cf. Mt 5, 13-14.

[9] Spe Salvi, nº 35.

[10] Cf. CHAUTARD, Jean Baptiste. A alma de todo apostolado. 2º Edição. São Paulo: Editora Artpress, 2015. Pág. 79.

[11] TANQUEREY, Adolphe. Compêndio de Teologia Ascética e Mística. 1º Edição. São Paulo: Editora Ecclesiae, 2018. Pág. 182, nº 361.

[12] Hb 12, 1-2a.


Autor:

Thalys Melo

(Diocese de Uruaçu - GO)

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